Crítica: ‘Jessica Jones”, Marvel/Netflix, 2° temporada

Crítica: ‘Jessica Jones”, Marvel/Netflix, 2° temporada

PS: Dedico esse artigo à minha amiga Jacqueline Lopes, que ainda não pode assistir a série nem escrever no blog por estar enrolada com seu vindouro mestrado. VAI QUE É SUA!

PS2: Tem spoiler no texto, tejem avisadxs!

O que poderia ser capaz de te assustar depois de ter encarado o seu pior inimigo? O que poderia te fazer sofrer depois de ser abusada, violada e sem livre arbítrio?

Criada no início dos anos 2000 por Brian Michael Bendis como protagonista da revista ALIAS, Jessica Jones logo caiu nas graças dos leitores da Marvel no selo MAX, e o anúncio de sua série pela Netflix deixou o público ansioso. A espera foi recompensada com uma personagem carismática e sem freios num instigante thriller psicológico.

Após todo o sofrimento provocado por Zebediah Kilgrave (David Tennant) , e sua ação conjunta com os Defensores, Jessica Jones (Krysten Ritter) tenta aos poucos rearrumar os cacos de sua vida. Mas é obvio que de uma forma ou outra o perigo e a confusão bateriam às portas da detetive, e ela mesmo trataria de correr atrás das duas coisas…

Jeri (Carrie-Anne), Jessica (Ritter), Thrish (Rachek Taylor) e Malcolm (Eka Darville)

 

Imersa em um vazio emocional e assombrada por pesadelos frequentes, Jessica segue seu cotidiano de trabalho investigativo na ALIAS, sem deixar de lado a bebida barata e sexo casual em lugares higienicamente inadequados para esquecer um pouco seus problemas. Após ter resolvido – pelo menos parcialmente – o caso do Tentáculo com Luke Cage (Mike Colter), Matt Murdock (Charlie Cox) e Danny Rand (Finn Jones) a procura por seus serviços simplesmente explodiu. Porém sua instabilidade emocional atinge níveis alarmantes, e a chegada de um concorrente de peso na cidade trata de acender o pavio já curto da moça. Paralelamente a isso sua meia-irmã Thrish Walker começa a investigar casos misteriosos de internação semelhantes aos dela numa clínica clandestina conhecida como IGH e descobre que outras pessoas receberam poderes na cura de traumas diversos através da reconfiguração de DNA. Hesitante e cada vez mais fora de controle, Jones se vê num labirinto que irá chacoalhar cada vez mais e mais graças a segredos de família, até um ponto sem volta.

Através de 13 episódios de pouco mais de 50 minutos cada vemos Jessica e os demais coadjuvantes terem um surpreendente desenvolvimento já aproveitando a base da temporada anterior. Krysten Ritter segue como o principal nome da série a nível dramático, amplificando todas as características que fazem da personagem ser tão adorada pelo público: falastrona, despudorada e livre de amarras, entre dezenas de outras. Jessica se vê em meio a um drama ao descobrir que sua mãe Alisa (Janet McTeer ) não apenas está viva como também passou pelos mesmos experimentos científicos que lhe salvaram antes, se tornando uma serial killer com suas capacidades físicas ampliadas de forma ainda mais extrema, ainda mais instável emocionalmente. Dividida entre a obrigação de deter sua mãe e anseando por ter seus anos familiares perdidos de volta, Jones é estarrecedoramente humana em suas virtudes e fraquezas, numa excelente performance de Ritter. Seu relacionamento com o zelador Oscar (J. R. Ramirez) e seu filhotambém cresce consideravelmente e ganha uma densidade que ajuda a marcar o crescimento pessoal da heroína.

Já a ex-estrela mirim e radialista Thrish ganha inesperados contornos emocionais quando seus vícios são revirados, assim como sua ‘inveja’ dos poderes de Jessica. Os últimos epispódios já preparam o espectador para o surgimento de mais uma heroína na cidade, embora seu relacionamento com um famoso âncora de noticiário seja um dos pontos fracos da série, utilizado de forma até rasteira como um falso sub plot. Sua mãe Dorothy (Rebecca de Mornay), fã da fama da moça e superprotetora tanto dela quanto de suas benesses, forma um interessante contraponto na maneira como as relações são mostradas ao longo desta temporada da série, sobretudo as maternais.

O assistente e aprendiz Malcom é outro que também apresenta uma jornada interessante. A sua ambição em crescer profissionalmente e fazer o bem para reparar os próprios erros do passado lhe colocam em conflito com Jessica em diversos momentos, numa relação cheia de altos e baixos, em uma boa performance de Eka. Sempre tentando ser ético e evitando os mesmos limites que a maioria dos advogados e investigadores cruzam, Malcolm é talvez o mais interessante gancho a ser explorado numa possível nova temporada, até para saber como Jones irá lidar com a mudança de status do ex-amigo e ex-sócio.

Mas de todos os ‘coadjuvantes’ talvez nenhum tenha uma trajetória tão vertiginosa quanto Jeri Hogarth (Carie Anne-Moss), a poderosa advogada. Diagnosticada com ELA, Jeri parte numa cruzada em busca de uma hipotética cura que lhe confere tonalidades até então inexploradas. Depois de ser flagrada no auge da carência e vulnerabilidade e enganada por dois aproveitadores, Hogarth ressurge como uma fênix no episódio final, mais inflexível, manipuladora e bem-resolvida consigo mesma do que nunca.

Ainda que muitos fãs tenham lamentado a ausência de Kilgrave nestes episódios pelos motivos mais óbvios possíveis, ele ‘ volta’ para colocar a sanidade de Jessica em xeque após um crime acidental. Poucos minutos em cena já a tiram do eixo e mostram como David Tennant conferiu ao personagem um ar debochado, sarcástico e odioso. Junto com sua personalidade expansiva, todo o mal que ele causou a Jones através de um relacionamento abusivo o tornam um dos vilões mais marcantes, ameaçadores e odiosos não apenas das séries da Marvel na Netflix, mas de todas as produções audiovisuais que a marca já entregou até hoje. Esse tipo de comportamento volta a ser discutido pela presença do Dr. Karl (Callum Keith Rennie ), o médico que tratou de Jessica, sua mãe e outras pessoas através de experimentos ilegais e se tornou amante da segunda.

E não é por ausência de um antagonista maior do ponto de vista físico que Jessica Jones deixa de ter sua forte carga psicológica. Se antes existia um único indivíduo a ser detido, agora todos os personagens principais citados acima lidam com seus próprios demônios internos e em mais de um momento são levados ao limite. As rupturas que ocorrem entre o trio principal são o ápice de todo esse processo e fazem com que adivinhar os novos rumos de suas histórias se torne uma tarefa bastante complicada, principalmente entre Jessica e Thrish. Não há necessidade de um nêmesis superpoderoso quando a pessoa mais importante de sua vida simplesmente mata a sua mãe.

Algumas resenhas por aí vem reclamando até mesmo da ausência de cenas fortes de sexo (?!?), mas falamos aqui de conteúdo relacionado a neurônios e não hormônios. As indas e vindas de Jessica com sua mãe Alisia servem de alicerce para a série através dos diversos questionamentos que nos são imprimidos corriqueiramente. Até onde podemos ir para salvar uma relação que parece condenada? Tal gama de emoções só pode ser explorada de forma tão verossímil por que todos os episódios são dirigidos por mulheres. Não por acaso a segunda temporada foi liberada em pleno Dia Internacional da Mulher. Existem sim muita representatividade e autoridade no discurso presente em JJ e críticas como as que tenho visto só reforçam a importância de atrações como essa.

Como não podia deixar de ser, a série sofre com alguns problemas de ritmo nos episódios finais e mal engendradas conveniências de roteiro, embora de maneira não tão grave quanto suas antecessoras. O já citado relacionamento de Thrish é de longe o momento mais dispensável da série e pouco ajuda na narrativa da moça, ao contrário do seu affair com Malcolm. E delegacias de polícia e bases secretas nas séries da Marvel/Netflix são lugares mais acessíveis e convidativos que sorveteria em dezembro durante o verão carioca. O plot na metade da temporada também se encontra presente. As conexões com os filmes da Marvel no cinema seguem no mesmo ritmo de ‘existir sem existir’, pois citações como a da Balsa (prisão para indivíduos superpoderosos onde os aliados de Steve Rogers estão confinados desde o fim de Capitão América:Guerra Civil) ocorrem sem muito peso e importância dentro do enredo, assim como várias piadas com Homem-Aranha: De Volta Ao Lar. Diretamente de Demolidor temos apenas uma rápida aparição de Foggy Nelson (Elden Henson) e o meliante Turk Barratt (Rob Barton), ambos com a advogada Hogarth, nada mais sobre nenhum outro herói nem o Justiceiro. Se por isso deixa no ar uma ausência de ligações entre o que foi apresentado anteriormente, louva-se a coragem dos produtores em apostar numa trama totalmente nova.

Jessica Jones cumpre bem seu papel enquanto atração, embora se mostre bastante independente das demais séries lançadas até o momento. A detetive desbocada é extremamente carismática, se sustenta muito bem como protagonista e parte de uma super-equipe, seria interessantíssimo vê-la interagindo com os heróis do MCU. Ou será que como o episódio final mostra teremos uma Jessica finalmente mais estável e sossegada? Duvido… Rs

Jessica Jones – 2ª Temporada (Idem, EUA – 08 de março de 2017)
Showrunner:
 Melissa Rosenberg
Direção: Anna Foerster, Minkie Spiro, Mairzee Almas, Deborah Chow, Millicent Shelton, Jet Wilkinson, Jennifer Getzinger, Zetna Fuentes, Rosemary Rodriguez, Neasa Hardiman, Jennifer Lynch, Liz Friedlander, Uta Briesewitz
Roteiro: Melissa Rosenberg, Aida Mashaka Croal, Lisa Randolph, Jack Kenny, Jamie King, Raelle Tucker, Hilly Hicks, Jr., Gabe Fonseca, Jenny Klein, Aida Mashaka Croal, Jesse Harris (baseado em quadrinhos de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos)
Elenco: Krysten Ritter, Rachael Taylor, Eka Darville, Carrie-Anne Moss, J.R. Ramirez, Terry Chen, Leah Gibson, Janet McTeer, Callum Keith Rennie, Hal Ozsan, John Ventimiglia, Lisa Tharps, Maury Ginsberg, Angel Desai, Daniel Marcus, Rebecca De Mornay, Elden Henson, Wil Traval, David Tennant, Jay Klaitz
Duração: 689 min. (aprox.)