Crítica: “Thor – Ragnarok”

Crítica: “Thor – Ragnarok”

OBS: Este filme foi lançado originalmente em 24 de outubro de 2017, porém as Forças do Mal impediram que nossa crítica visse a luz do dia, jogando-nos através de um buraco de minhoca para um lugar distante cuja relação tempo-espaço é distorcida, sem acesso a internet. Pois bem, cá estamos!

O fim de tudo. Ou um novo começo. Praticamente todas as culturas lidam com transições de modo particular, e isso não seria diferente quando falamos da mitologia nórdica. O Ragnarok originalmente se trata de um recomeço, quando todo todos os seres reiniciam sua existência, muitas vezes sob uma nova forma, e já foi trabalhado nos quadrinhos da Marvel Comics em diversas oportunidades, sempre gerando histórias no mínimo curiosas.

O termo não poderia se aplicar melhor a um filme do que Thor: Ragnarok, ignorando completamente o tom mais cinza e mais dramático de seus antecessores e levando o Deus do Trovão interpretado por Chris Hemsworth numa jornada cheia de cores e piadas para impedir o fim de Asgard pelas mãos da impiedosa Deusa da Morte, Hela (Cate Blanchett) – sua irmã.

Após os eventos de Vingadores: Era de Ultron, Odinson resolveu se afastar da equipe e rodar os Nove Reinos atrás das Joias do Infinito, mas encontra uma bagunça,  resultado direto das tresloucadas ações de Loki (Tom Hiddleston), que se passou por Odin (Anthony Hopkins) e literamente transformou Asgard num palco de comédia pastelão, tecendo loas a seus feitos contra os elfos negros. Heimdall (Idris Elba) não é mais o guardião de Bifrost por ter sido considerado um traidor ao ajudar Thor anteriormente e seu posto passa a ser ocupado por Skurge, O Executor (Karl Urban). Ao partirem para a Terra atrás do Pai-De-Todos escondido num asilo pelo Deus da Trapaça, os dois topam com o Doutor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), já como o Mago Supremo da Terra e acabam por descobrir diversos outros segredos de Odin, que está no fim de sua existência, e isso torna possível a vinda de Hela para cumprir seu papel – literalmente destruir toda e qualquer forma de vida.

Claro que o Campeão de Asgard não permitiria isso e enfrenta junto com Loki sua irmã mais velha e muito mais poderosa, que simplesmente esmaga o místico martelo Mjolnir sem qualquer esforço. Ao cair da Bifrost num buraco de minhoca  e ir parar no longínquo planeta Sarkar, dominado pelo excêntrico Grão-Mestre (Jeff Goldblum), que tem como espécie de ópio do povo o seu próprio Torneio de Campeões, Thor se dá conta que a sua única chance de fugir para impedir Hela será derrotar o atual detentor do título: o Incrível Hulk (Mark Rufallo)!

Thor: Ragnarok não tem o menor interesse em manter formalidades e padrões. O diretor Taika Waititi aposta numa linguagem ágil e o primeiro ato do filme flui com uma admirável dinâmica, mesmo com tantos personagens em cena. Iniciar a história já com a destruição do martelo mágico mostra que a equipe não estava com medo e as pontas de Matt Damon e Sam Neill durante o teatro de Loki são bastante agradáveis. Mas é justamente nessa coragem que residem os pontos fortes e fracos do longa. Quem esperava por um filme com apelo mais sério e que trouxesse  consequências mais graves de um apocalipse entre deuses e monstros ou próximas do que foi visto nas HQ’s durante o arco de mesmo nome (que até hoje influencia a relação do Deus do Trovão com alguns personagens) pode se decepcionar bastante. Causa espanto a morte dos Três Guerreiros Fandrall (Zachary Levi), Volstagg (Ray Stevenson) e Hogun (Tadanobu Asano), sem muita cerimônia, com exceção do último. Lady Sif (Jamie Alexander)  que havia entregue uma das Joias do Infinito ao Colecionador (Benicio Del Toro) sequer aparece, assim como Jane Foster (Natalie Portman). Ao que tudo indica as duas não irão mesmo voltar. E Levi está confirmado no elenco de Shazam!, já em produção pela Warner.

O próprio protagonista abandona a postura mais sisuda de histórias passadas e passa a se comunicar de forma mais simples e bem-humorada, já aproveitando a experiência de Hemsworth em papéis de comédia. Sua relação com Hulk/Bruce Banner também é bastante divertida e justifica o título de ‘buddy road movie’ dado ao filme por Ruffalo em entrevistas passadas. O destaque dado ao Golias Esmeralda pode ser explicada pela adaptação feita de Planeta Hulk, desde o local onde maior parte da trama se passa até o tempo de tela que o Verdão possui, bem maior do que em longas anteriores.

Entretanto, é em Loki que reside o maior problema. Mesmo com bastante exercício de boa vontade se torna difícil aceitar a compaixão de Thor por seu meio-irmão, principalmente depois de suas ações na Terra e em Asgard, quando aprisionou o próprio pai num asilo, mais ainda quando consideramos que Thor se auto-denominou o principal protetor da raça humana tempos atrás, viu Loki matar o agente Phil Coulson (Clark Gregg) e centenas de pessoas quando tentou dominar o planeta e foi enganado. É uma perspectiva que ao meu ver torna a absorção da história deliberadamente difícil e arriscadíssima, mesmo levando em conta o enorme carisma de Tom Hiddleston em cena.

Mas tirando esse quesito Thor: Ragnarok  também traz boas adições ao Universo Marvel. As Valquírias são reveladas como a guarda de elite de Odin e possuem em Tessa Thompson uma representante mais do que digna, ainda que a aproximação entre ela e Thor soe um pouco forçada no final. E Karl Urban consegue se destacar em todas as cenas como Skurge, principalmente em seu ato derradeiro.  Já Cate Blanchett usa sua classe para tornar Hela ainda mais ameaçadora e imponente.

Com uma paleta de cores vibrante e uma trilha sonora oitentista que abusa de sintetizadores, o filme é muito bonito visualmente e usa a arte de Jack Kirby como influência em seus cenários, reforçando o que já havia sido feito em Doutor Estranho com relação ao trabalho de Steve Ditko. E o cuidado se expressa principalmente nas sequências envolvendo o Hulk, cujos movimentos são bastante fluidos e capturam todas as expressões de Mark Ruffallo, mostrando como a tecnologia de MC evoluiu nos últimos anos, principalmente durante sua luta contra o lobo Fenrir. Já o mesmo não pode ser dito do Korg de Taika Waititi, extremamente artificial e bobo, cuja presença talvez possa ser resumida através das palavras do próprio diretor, que “buscou o máximo possível para aparecer”

Em seus minutos finais Thor: Ragnarok usa alguns plot twists para dar um peso maior á narrativa e justificar algumas decisões de roteiro. A primeira é que o martelo Mjolnir funcionava como uma espécie de trava para o verdadeiro poder de Thor, liberado após a ‘transição’ de Odin. E a outra é que Asgard não existe mais fisicamente, porém se resume nos sobreviventes do reino, que partem numa nave gigantesca rumo a Terra e a confirmação de Thor como o rei caolho. Mas Hela ao que tudo indica ainda está viva e já que se trata da Deusa da Morte, torna-se tentador imaginar que um certo Titã Louco a caminho do mesmo planeta possa vir a se apaixonar por ela, não?

Uma comédia com toques de ação que bebe do material fonte com extrema ousadia, Thor: Ragnarok  se mostra um passo definitivo rumo a uma direção mais longínqua do que as histórias de seu protagonista atualmente. Saem os questionamentos filosóficos e a sensação de um deus entre mortais, chegam para ficar as piadas e gags visuais. Se é bom ou ruim, fica a cargo de cada um. Mas o tilintar dos cofres não deixa dúvidas, a Marvel achou um método extremamente eficiente de fabricar blockbusters em série.

Cabe agora aguardar por Pantera Negra e ver se o Universo Marvel seguirá por esse caminho ou tentará dialogar com a realidade, na medida do possível.

Thor: Ragnarok (Idem, EUA – 2017)
Direção:
 Taika Waititi
Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Christopher Yost
Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins, Benedict Cumberbatch,  Taika Waititi, Clancy Brown, Ray Stevenson, Rachel House, Zachary Levi
Duração: 130 min.