Fãs que não aceitam mudanças mostram tudo aquilo que não podemos nos tornar

Fãs que não aceitam mudanças mostram tudo aquilo que não podemos nos tornar

Até onde vai o limite saudável da idealização de fãs para com a obra que tanto adora ou dizem adorar? Onde foi que perdemos o trilho? A reação diversa a Star Wars – Os Últimos Jedi vem mostrando como as redes sociais ocupam espaço na grande mídia. Um grupo autodenominado de extrema direita assumiu que vem utilizando a criação de bots para manipular críticas negativas ao filme e assim diminuir seu índice de aprovação e assim prejudicar sua arrecadação. O episódio VIII apresenta incríveis 92% de aprovação da crítica especializada contra 58% da aprovação popular. Tal fato parece não abalar a produção, que caminha imbatível rumo aos 800 milhões de dólares de bilheteria em pouco menos de três semanas de exibição.

Alguns argumentos? ” O filme é tudo aquilo que Star Wars nunca foi”, “Luke se tornou um covarde”, “as mulheres estão com protagonismo exagerado”, “a franquia está politicamente correta demais”, “Chewbacca virou vegano” e outras bobagens simplesmente risíveis. Um outro fã chegou a criar uma petição online exigindo que o longa fosse retirado do cânone da série e que chegou a contar com pouco mais de vinte mil assinaturas, mas dias depois declarou estar sob efeito de remédios e frustrado por não conseguir arcar com os custos do tratamento de uma doença.

Manifestações com essa não são novidade dentro da cultura pop. Star Trek já nos anos 60 abordava temas como viagem no tempo, realidades alternativas e trazia enorme diversidade, isso em tempos onde a segregação racial era praticamente regra e a polarização ditava os rumos científicos e políticos do planeta. Foi inclusive a primeira série de TV a mostrar um beijo interracial entre o capitão Kirk (William Shatner) e a tenente Uhura (Nichelle Nichols), gerando fortes protestos. Cada nova geração de tripulantes da Enterprise lidou com sua cota de enfrentamento e o mesmo acontece com a nova série oficial, Discovery, exibida atualmente na Netflix.

Em 1989 Tim Burton escolheu Michael Keaton para protagonizar o seu Batman e os estúdios da Warner Bros receberam milhares de cartas reprovando a escolha por conta da aparência do ator, considerado gordinho e baixinho demais. Bastou o filme estrear para todas as críticas caírem por terra e até hoje Keaton colhe elogios por conta de sua abordagem  para o Cavaleiro das Trevas. Na década seguinte Robert Downey Jr foi o eleito para protagonizar Homem de Ferro pelo próprio diretor Jon Favreau e as recém-nascidas redes sociais (lembram do Orkut??) explodiram em desagrado, pois se tratava do primeiro longa da Marvel. Downey  – que havia acabado de cumprir pena em regime fechado e passou por longos e maus bocados por conta de sua dependência química e crimes cometidos – personificou o Tony Stark mais cool, beberrão e sarcástico dos quadrinhos Ultimate de uma forma indefectível, ressuscitando sua carreira e visto como a peça principal do hoje vitorioso e bilionário Universo Cinematográfico do estúdio.

E o que dizer de Heath Ledger? Outrora galã teen e ali então um dedicadíssimo ator metódico, o australiano fez com que milhares de internautas babassem de raiva quando foi escalado por Christopher Nolan para viver o Coringa, nêmesis definitivo do Batman de Christian Bale em Cavaleiro das Trevas, principalmente por ter atuado anteriormente em O Segredo de Brokeback Mountain ao lado de Jake Gyllenhall, romance entre dois caubóís que ganhou diversos prêmios.  Ledger não só calou os críticos como deu ao mundo uma versão caótica, anárquica, sádica e inesquecível do palhaço do crime, ganhando todos os prêmios possíveis. Infelizmente, póstumos. Ainda pela DC tivemos como caso mais recente Gal Gadot, a Mulher Maravilha. A israelense foi classificada fora dos padrões vigentes para viver uma amazona por ‘não ser musculosa o bastante’ mas tratou de fazer o dever de casa, contra-argumentando cada crítica com precisão histórica e reconhecendo a importância do ícone feminista que estava representando, e junto da diretora Patty Jenkins fizeram do filme um enorme sucesso de público e bilheteria.

Saíram as cartas e faxs, hoje são os tweets e atualizações de Facebook, e o impacto dessas opiniões cresceram a ponto de ditar o destino de filmes. Mad Max: Estrada da Fúria sofreu com inúmeros problemas de agenda e logística e refilmagens por pouco mais de dois anos e por isso chegou ao grande circuito praticamente sem uma campanha de marketing por pura falta de fé de seus produtores, dando como certo o prejuízo. Inicialmente desagradando os fãs mais radicais que alegavam que a franquia havia se tornado ‘uma alegoria feminista’ e lamentando a ausência de Mel Gibson, o fracasso parecia iminente. Mas após ser ovacionada de pé em Cannes e gerar um boca-a-boca virtual massivamente positivo a história de colaboração em busca de sobrevivência e humanidade entre Max Rockatansky (Tom Hardy) e Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) num futuro distópico, arenoso e insano ganhou novo fôlego comercial, conseguindo recuperar o investimento inicial e fazendo com que a Warner apostasse mais em propaganda. Resultado? Dez indicações ao Oscar e seis estatuetas, 98% de críticas positivas no Rotten e o mais brilhante atestado da jovialidade e capacidade artística do cineasta George Miller, do alto de seus 82 anos. E um culto que só cresce dentro da cultura pop, desde bordões de personagens a uma convenção própria que roda o mundo inspirada na franquia, a Wasteland Weekend.

Entretanto, nem todas as histórias que apostaram em uma nova visão tiveram final feliz. Caça-Fantasmas, mesmo sendo uma boa comédia, produzido por Dan Aykroyd e contando com apoio e pontas do elenco original, foi massacrado pelo boicote do público mais conservador, inconformado por ver quatro mulheres no lugar da equipe original: Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Leslie Jones e Kate Mckinnon. O boicote prejudicou totalmente a carreira comercial do longa e mesmo com tantos elogios da crítica a continuação que antes era certa foi descartado pela Sony. Leslie Jones sofreu pesados ataques racistas em suas contas nas redes sociais, cancelando-as. Melissa, uma das principais campeãs de arrecadação do cinema norte-americano, foi perseguida com xingamentos por conta de sua forma física, como se isso fosse da conta de mais alguém além dela mesma.

Voltando a Star Wars, não deixa de ser irônico observar o padrão dessas críticas. O Despertar da Força foi acusado de ser um filme covarde demais por se apoiar de forma tão explícita na narrativa em Uma Nova Esperança. Mas Os Últimos Jedi  apresenta tudo aquilo que as pessoas mais conservadoras tanto temem: mudança, quebra de padrões, discussão sobre erros e acertos. Ao humanizar a jornada de Luke Skywalker (Mark Hamill) e desconstruir explicitamente o heroísmo masculino irracional através da figura de Poe Dameron (Oscar Isaac), este episódio VIII toca em temas que quando discutidos incomodam, e muito, indo desde a exploração de mão de obra por conta do comércio de armas até a cultura patriarcal. E mais ainda, segue adicionando personagens bem trabalhados que aumentando a diversidade da franquia, com a Almirante Holdo (Laura Dern) e a mecânica Rose (Kelly Marie Train), que só contribuem para tornar um time que já contava com Rey (Daisy Rider), Finn (John Boyega) e tem na General Leia Organa (a eterna Carrie Fisher) sua maior representação.

Talvez a maior conquista de uma obra a nível artístico seja o poder de gerar nas pessoas novas e diferentes interpretações a cada ‘replay’. E ninguém melhor do que o próprio Mark Hamill para atestar isso. Inicialmente dizendo que não havia gostado do roteiro de Rian Johnson por ser radicalmente diferente daquilo que George Lucas havia planejado originalmente e criticando o autoexílio de Luke – ‘Jedis não fazem isso!’ e ‘Este não é o meu Luke!’ -, o ator e dublador declarou depois que estava errado sobre a história e que passou a admirar ainda mais as camadas que Skywalker exibiu ao longo do filme, exaltando a abordagem de Johnson.

Parece ser crônico que produções que questionem o status quo vigente gerem tantas críticas, questionamentos e reações exacerbadas. E algo é extremamente bem-vindo, visto que diversos campos do saber concatenam que seres humanos são entidades em constante desconstrução, passíveis de falhas, capazes de buscar consertar as coisas.

Ninguém é obrigado a gostar ou não de algo. Uma pessoa tem como obrigação entender que tem total direito de emitir suas opiniões e mudá-las, desde que dentro dos padrões aceitáveis e legais. Mas é preciso retificar,  principalmente, que fã não é dono da história.  Se um artista do calibre de Hamill, do alto de seus 62 anos, teve a humildade de reconhecer isso, o fã reacionário, tradicional e de bem, que ventila frases prontas, memes e espalha senso comum também pode fazer o mesmo. Basta ter vontade, acordar, sair da bolha, deixar de acreditar em mitos.