Crítica:”Star Wars – Os Últimos Jedi”

Crítica:”Star Wars – Os Últimos Jedi”

Quando a compra da Lucasfilm pela hoje toda-poderosa Disney foi anunciada anos atrás, muitos fãs de Star Wars torceram o nariz, principalmente pelo universo expandido da saga (e consequentemente o material com o selo Lendas, que tinha ligação direta com o cânone) ter sido ‘limado’, também alegando uma possível ‘infantilização’. Talvez isso explique a enorme semelhança de O Despertar Da Força com Uma Nova Esperança: um passo na intenção de fincar território, agradar os fãs antigos e ainda introduzir Leia, Luke, Han & cia a uma nova geração de espectadores.

Entretanto,  com Rogue One – Uma História Star Wars, notou-se algo substancialmente diferente, tanto em relação aos personagens como a estrutura narrativa. Um filme de sabotagem, espionagem industrial e fuga, nunca antes explorado nos cinemas. E felizmente Os Últimos Jedi também segue por caminhos ousados e inesperados, sem medo de arriscar, mas nem por isso deixando de fazer referência ao imenso legado conquistado ao longo de mais de três décadas dentro da cultura pop.

E A Força é poderosa neste legado. Cada novo episódio de Star Wars é um vasto desfile de camisetas, penteados e fantasias nas sessões de cinema, principalmente na pré-estreia. O comportamento do público é educado e respeitoso, sem barulho excessivo, com palmas e reações genuínas; conta-se nos dedos a saída de gente pra ir ao banheiro, geralmente só levando crianças). Nenhum celular tocando ou vibrando nem selfies tirados na sala. Mesmo na era de gadgets e com inúmeros tomadores de atenção ainda se observa como a fascinação que a franquia desperta nas mais diferentes gerações permanece intacta. Basta o icônico letreiro amarelo subir que tudo ao redor deixa de ter muita importância. Se você ainda tem dúvida sobre o tamanho impacto que a série exerce, vá a uma Jedicon, a feira temática.

 

Começando imediatamente depois do Episódio VII temos a Resistência Rebelde liderada pela general Leia Organa (Carrie Fisher) num ataque desesperado contra um cruzador da Primeira Ordem do Supremo Líder Snoke (Andy Serkis) e que acaba por ser repelido, tamanha a desvantagem, mesmo com a habilidade do piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) e o sacrifício de várias pessoas. Com a situação próxima de chegar a um ponto sem retorno para todo o universo, cresce a ansiedade pelo êxito de Rey (Daisy Ridley), que partiu para os confins da galáxia junto com Chewbacca (Peter Mayhew) tentando trazer de volta o cavaleiro Jedi Luke Skywalker (Mark Hamill), exilado no planeta Ahch-To, para deter os avanços imperiais. Mas Skywalker reluta em ajudar, traumatizado pela culpa por conta do fracasso do treinamento de Ben Solo (Adam Driver), que sucumbiu ao lado negro e dizimou os outros padawans que estavam sob sua tutela. Ele passa a fazer o possível para não entrar em contato com a Força, se vestindo de cinza. E chama a atenção a reação de Luke ao receber o sabre de luz de Rey, jogando-no fora: pode ser interpretada como a forma do diretor  e roteirista Rian Johnson longa dizer de cara que não usaria fórmulas padrão e daria as cartas do próprio jeito.

As cores contrastantes são uma constante. Deste a neutralidade de tons adotada por Luke até o vermelho intenso da câmara ocupada por Snoke e seus membros da Guarda Pretoriana, todos com armaduras incrivelmente detalhadas e que fazem referência aos samurais japoneses. E a quantidade de detalhes neste em outros cenários é de dar gosto, principalmente o planeta-cassino visitado por Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran).

Bem, a partir desde trecho o texto contará com spoilers, então avance somente se já assistiu o filme, caso contrário não me responsabilizo!

 

Os Últimos Jedi apresenta um começo bastante lento que pode ser explicado não apenas pela postura de Skywalker, mas também o desenvolvimento de alguns arcos, novos elementos e personagens, o que se mostra uma decisão majoritariamente certa de Rian Johnson. O destempero de Dameron em batalha acaba por lhe custar um rebaixamento dentro da hierarquia da Resistência por Leia e aos poucos o piloto compreende que ser um líder é algo muito mais complexo. Já a general sobrevive a explosão de uma nave manifestando a Força pela primeira vez. A cena é emocionante, não apenas por ser bem-feita tecnicamente mas por estabelecer um inusitado paralelo ao falecimento da atriz em dezembro. Afinal, Carrie Fisher foi maior que a vida em tudo o que fez e aqui a General Leia transborda classe, liderança e humanidade, se colocando entre o panteão das maiores lendas do universo SWe .

A diversidade de personagens iniciada em O Despertar da Força continua a ser desenvolvida. A vice-almirante Holdo (Laura Dern) assume a liderança da Resistência durante a recuperação de sua superior e transmite firmeza e pulso firme a cada quadro, principalmente em sua última e altruísta ação,  e sua participação no longa pode ser entendida como crítica direta ao heroísmo irracional não apenas de Poe, mas que rotula grande parte dos protagonistas masculinos nas produções do cinema. Já Rosie está disposta a honrar a morte de sua irmã na luta contra a Ordem e passa a colaborar com Finn num plano que se na teoria fracassou na prática acende uma fagulha sobre novos rumos que a série pode vir a tomar em episódios futuros. Mulheres fortes, de autoridade e de todos os tipos chegaram para ficar em Star Wars, para tristeza de tantos fãs inseguros que insistem em protagonismo feminino exagerado e outras bobagens. Afinal, aqui é a jornada da heroína, e não de heróis.

Os Últimos Jedi acaba por perder alguns pontos em relação ao equilíbrio de tantos personagens. A rivalidade entre Finn – que se aceita finalmente como membro da Resistência – e a Capitã Phasma (Gwendoline Christie) não decola e a oficial da Primeira Ordem entra para o rol de figuras de imenso potencial desperdiçadas em Star Wars no cinema, junto com Boba-Fett e Darth Maul.  E é de partir o coração ver o Almirante Ackbar (Tim Rose), tão adorado pelos fãs, partir de forma tão seca, sem qualquer menção mais dramática. Fico aqui torcendo para que o personagem volte de forma milagrosa sendo salvo por alguma outra nave rebelde, mas aí teremos de esperar pra ver. Junto de Rosie,  o decifrador de códigos vivido por Benicio Del Toro acaba por evidenciar algumas conveniências de roteiro, mas também insere um tema inédito neste universo: o comércio de armas para os rebeldes e membros da Primeira Ordem e a desigualdade social que a guerra provoca. Mais uma discussão válida trazida pela franquia e que bate pronto com o que vemos diariamente nos noticiários. Afinal, o capital sempre afeta toda a ordem social e econômica.

E por falar de roteiro, o andróide BB8 é usado claramente como muleta em algumas situações que chegam até a ser absurdas, mas o personagem é tão diverso, funcional e engraçado que fica até difícil analisar mais friamente. Ele e Chewbacca – as voltas com seus novos amigos Porgs após uma tentativa frustrada de jantar – são os maiores alívios cômicos do longa, junto com o general Hux (Doomhall Gleeson), ávido para trair Kylo e comandar a Ordem mas sempre humilhado por ele.

Mas as reviravoltas não são poucas em Os Últimos Jedi, principalmente após sua primeira hora, que é quando o filme decola. Ao matar o Supremo Líder Snoke e tentar seduzir Rey para o lado negro Kylo Ren elimina qualquer dúvida sobre seus conflitos e se confirma como o grande vilão desta trilogia, através de uma performance sólida de Driver. Ele sabia das intenções de Snoke, mas as usou para seus próprios objetivos. Já Daisy Ridley também entrega uma Rey que mesmo com tantas dúvidas e anseios não reluta em fazer o bem. Mas é Luke Skywalker o coração e alma desta história. Seu medo de de falhar novamente como mestre e arrependimento por quase ter cruzado a linha tênue para o lado negro com o sobrinho são jogados por terra numa espetacular participação de Yoda (Frank Oz – através de efeitos práticos!). ” O fracasso melhor professor é. ”  Tão singelo quanto uma brisa e poderoso como um raio que literalmente cai do céu, Yoda mostra a seu pupilo e amigo que a luz nunca deve se esconder das trevas.

É a deixa para que o último ato do filme comece, trazendo todos os elementos necessários para arrancar nosso fôlego, com o planeta abundante em sal vermelho Crait como cenário.  A ação extremamente bem executada, a fotografia de Steve Yedlin que destaca a beleza natural do lugar e efeitos dos tiros e explosões, a edição arrojada e compreensível de Bob Ducsay e a resolução de todos os arcos anteriores através da narrativa por Johnson coexistem de forma saudável e harmônica, numa aula técnica a diretores contemporâneos que abusam de câmera tremida e decisões sem sentido. Os efeitos especiais são simplesmente excelentes, impecáveis, e isso torna a decisão por um Yoda mais físico ainda mais corajosa. O único ponto negativo vai para a trilha sonora de John Williams, mais uma vez burocrática e só interagindo com o filme quando lança mão do adorado Tema da Força de forma excessiva, ainda que isso possa ser explicado pelo enorme tempo de tela que Luke possui, mas a Primeira Ordem e personagens como Kylo Ren ainda carecem de uma identidade sonora, marca tão indelével de Star Wars. Cada vez mais sinto a impressão que que Sir John segue apenas cumprindo tabela e já esgotou sua criatividade para a franquia. Talvez seja a hora de abrir espaço para novos compositores como o próprio Michael Giacchino, responsável pela ótima música de Rogue One.

Mas tudo isso acaba ficando de lado quando Luke Skywalker surge entre as sombras da mina, mais uma vez abraçando a luz, para se resolver com sua irmã de forma simples e tocante (o número de pessoas na sala chorando quando se despediram era enorme), dar aos rebeldes uma chance para fugir e ainda mostrar a Kylo Ren e a Primeira Ordem todo o poder, nobreza e sabedoria de um mestre Jedi, numa sequência digna de empolgados aplausos. É notável a expressão de respeito dos rebeldes quando os dois estão interagindo, sobretudo Poe. Notem os dados que ele dá a ela, os mesmos que estavam na Millennium Falcon de Han Solo (Harisson Ford) em Uma Nova Esperança. Quando vemos Skywalker, exausto por conta de sua projeção astral interplanetária, contemplando dois sóis (assim com sua primeira cena em Tatooine no mesmo filme) finalmente deixando este plano, automaticamente concluímos que ele será a partir de agora um fantasma Jedi, fazendo parte da Força e auxiliando Rey em sua jornada. Um final digno, majestoso, e só possível de atingir este nível por conta do excelente ator que Hamill se tornou depois de tantos anos, capaz de incendiar plateias, transmitir tristeza e ternura apenas com a intensidade do olhar.

A mensagem de Os Últimos Jedi é clara: a esperança é a fagulha que acende toda uma luta. Sem medo de arriscar e desconstruir paradigmas até então visto como intocáveis dentro da série, Rian Johnson comete alguns deslizes, mas triunfa e entrega ao público o filme mais corajoso e impactante a carregar esta marca desde O Império Contra-Ataca, o que sem dúvida deixaria Carrie Fisher tremendamente orgulhosa. Fica agora a dúvida sobre qual será a tônica do próximo episódio, a ser novamente dirigido por J. J. Abrams: um filme tão ou mais corajoso ou que abraça decisões já tomadas anteriormente, assim como O Despertar da Força. Mas antes disso teremos no próximo ano ainda Solo: Uma História Star Wars, que irá contar a origem do contrabandista mais amado desta e de outras galáxias… E com certeza uma legião de fãs estará lá para acompanhar.

 

Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi) — EUA, 2017
Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson
Elenco: Daisy Ridley, Mark Hamill, Adam Driver, Gwendoline Christie, Domhnall Gleeson, Carrie Fisher, Billie Lourd, Andy Serkis, Joseph Gordon-Levitt, Laura Dern, Oscar Isaac, Benicio Del Toro, Kelly Marie Tran, John Boyega, Lupita Nyong’o, Warwick Davis, Hermione Corfield, Peter Mayhew, Joonas Suotamo, Veronica Ngo, Gareth Edwards, Anthony Daniels, Jimmy Vee, Tim Rose
Duração: 152 min.