Crítica: “Justiceiro, 1°a temporada”, Marvel/Netflix

Crítica: “Justiceiro, 1°a temporada”, Marvel/Netflix

Mais um produto da  (por enquanto) parceria entre a Marvel e Netflix chegou, o sexto até o momento. Após a comentada aparição do Justiceiro (Jon Bernthal) em Demolidor o público recebeu com empolgação a confirmação de uma primeira temporada com classificação etária para maiores, afinal seria uma chance de conferir  cruzada de Castle por vingança sem qualquer censura, repleta de sangue, tiros e violências.

Criado por Gerry Conway e Ross Andru em 1974 e inicialmente um vilão das histórias do Homem-Aranha, Frank Castle sempre foi um anti-herói e personagem considerado do segundo escalão da Marvel, atingindo o auge de sua popularidade no início dos anos 90, quando ganhou seu primeiro longa e jogos de videogame. Mas três atores já vestiram o manto da caveira antes de Bernthal: Dolph Lundgren, Thomas Jane e Ray Stevenson. Mas foi Jane depois em 2012 que proganonizou o curta Dirty Laundry, adorado pelos fãs até hoje. Com a volta dos direitos do personagem para a Marvel esta primeira temporada toma como base elementos de todas as suas fases dos quadrinhos até hoje, mas usa claramente a versão MAX do personagem, que foi comandado por Garth Ennis (de Preacher), principalmente o passado militar no Afeganistão.

Ao contrário de Punho de Ferro, que patina por introduzir seu protagonista de forma apressada e falha em estabelecer laços entre ele e o espectador, Justiceiro já aproveita o fato da origem de Castle ser conhecida e avança sua história para depois do que vimos na segunda temporada de Demolidor. Fora da cadeia e sem seu arsenal, Castle trabalha como operário e aproveita a demolição para exorcizar seu ódio pelo assassinato de sua família, tentando retormar sua vida. Logo após  dizimar bandidos que tentaram matar um colega de trabalho como queima de arquivo após um assalto frustrado a um cassino, ele é encontrado por David Lieberman, o Micro (Ebon Moss-Bachrach) um ex-analista de informações do governo que vive nas sombras para proteger a própria família após sobreviver a uma tentativa de assassinato por vazar na internet um vídeo comprometedor sobre a Operação Cerberus, que usava clandestinamente cadáveres durante a ocupação do Afeganistão pelos EUA para traficar heroína – conteúdo que estava no mesmo disco que Castle recebeu antes. Ele descobre que a rede de responsáveis pelo assassinato de sua família é muito maior do que pensava e com a ajuda de Micro decide buscar os responsáveis, chegando até William Rawlins (Paul Schuze). Paralelamente a isso temos a agente da CIA Dinah Madani (Amber Rose Revah), que investiga os mesmos traços de corrupção no governo e esbarra com Castle tentando impedir a venda das suas armas no mercado negro. É quando entra em cena Billy Russo (Ben Barnes), ex-fuzileiro e dono de uma agência de mercenários que possui profundas conexões com Castle que vão além do tempo de serviço juntos no oriente médio.

Karen Page (An Woll), Micro (Moss-Bachrach), Castle (Bernthal), Rawlins (Schuze), Russo (Barnes) e Madani (Rose Revah)

 

Durante seus 13 episódios Justiceiro aproveita o modo de trabalho radicalmente diferente de Castle em relação aos demais vigilantes apresentados nas outras séries para discutir os limites legais de uma busca por vingança. Qual a diferença entre justiça e punição? Até onde é possível ir, mesmo sabendo que nada disso será o bastante para curar uma ferida tão grande? Em momento algum Frank é tratado como um personagem unidimensional que mata sem pestanejar, mas que ainda sofre profundamente por um trauma, mesmo sendo um soldado por definição. O trabalho de Bernthal é excelente e ele dá ainda mais veracidade a todas as ações do Justiceiro. Quando vemos ele interagindo com os filhos de Lieberman fica no ar a falta que sente de ter uma família.

O transtorno de stress pós traumático tão comum em soldados que servem em grandes conflitos por longos períodos e que costumam ser tratados como párias quando sua pátria sai perdedora em algum nível é abordado não apenas com Castle, mas com o jovem Lewis (Daniel  Webber), claramente perturbado. E pode-se definir como audaciosa a postura dos criadores em discutir sobre liberação do porte de armas entre a população, através de Karen Page (Debra Ann Woll), que se diz a favor – e um senador contrário à medida – este, rodeado de seguranças armados. Em tempos onde a população se mostra indignada por soluções fáceis contra os crescentes índices de violência e se mantém longe dos reais motivos e interesses que os causam, é bom ver que num país com cultura armamentista tão forte quanto os EUA ainda se questionam quanto a essas saídas imediatas e vazias.

Tecnicamente a série não sai do lugar comum em relação a ângulos e quadros. A trilha sonora também funciona, apesar do tema de abertura não ser tão marcante quanto em séries como Demolidor e Luke Cage. O excesso de cenas noturnas em momento algum torna a ação incompreensível.

O Justiceiro é sem dúvida um personagem de muita densidade, e extremamente bem defendido por Bernthal. Ben Barnes também se destaca como Billy Russo, oferecendo uma performance versátil. O elenco ainda escala atores conhecidos por filmes de guerra, como Paul Schuze (John Rambo) como Rawlins e Clancy Brown (Tropas Estelares, Star Trek e Star Wars) como o coronel Schoonover, assassinado por Castle na segunda temporada de Demolidor. A presença de atores como C. Thomas Howell e Mary Elizabeth Mastrantonio também externa um saudosismo, pois foram famosos nos anos 80. Mary Elizabeth despontou para a fama como a irmã de Tony Montana (Al Pacino), o alucinado protagonista de Scarface. Já Thomas Howell era um jovem promissor na segunda metade da década e havia estrelado diversas comédias românticas até protagonizar um filme chamado Soul Brother, sobre um garoto branco de classe média que resolve passar por negro para entrar na universidade. O filme foi massacrado pelos críticos e pôs a carreira de Howell na geladeira por longos anos. Já negativamente chama a atenção a performance de Amber Rose Revah como Madani. Ainda que a personagem se defina como fria, arrogante e independente, ela apresenta praticamente a mesma expressão facial e tom vocal em todas as cenas, inclusive as românticas e de drama.

Ainda que sofra um pouco com a falta de ritmo por volta do décimo episódio, Justiceiro funciona como entretenimento e instigador de discussão de um tema tão presente em nosso cotidiano. E se recupera nos dois episódios finais, ainda oferecendo o surgimento de um dos principais inimigos do personagem em seu final, numa cena de deixar até quem tem nervos de aço meio incomodado. Mesmo sem concordar com os métodos cruéis de Castle a sua dor não deixa de incomodar. Mas fica novamente a pergunta no ar: qual a diferença entre justiça e punição?

O Justiceiro – 1ª Temporada (The Punisher) — EUA, 2017
Criação:
 Steve Lightfoot
Showrunner: Steve Lightfoot
Direção: Andy Goddard, Tom Shankland, Antonio Campos, Kevin Hooks, Marc Jobst, Jim O’Hanlon, Kari Skogland, Stephen Surjik, Dearbhla Walsh, Jeremy Webb, Jet Wilkinson
Roteiro: Ross Andru, Gerry Conway, Ken Kristensen, Angela LaManna, Steve Lightfoot, Felicia D. Henderson, Dario Scardapane, Christine Boylan, Michael Jones-Morales, Bruce Marshall Romans
Elenco: Jon Bernthal, Amber Rose Revah, Ebon Moss-Bachrach, Ben Barnes, Jaime Ray Newman, Kobi Frumer, Paul Schulze, Michael Nathanson,  Ripley Sobo, Daniel Webber, Jason R. Moore, Kelli Barrett, Deborah Ann Woll, Shohreh Aghdashloo, Mary Elizabeth Mastrantonio, C. Thomas Howell, Royce Johnson
Duração: 13 episódios entre 44 e 52 min. cada