“Tropa de Elite”: 10 anos depois, o que mudou?

“Tropa de Elite”: 10 anos depois, o que mudou?

É preciso se reconhecer quando uma obra ganha se transforma num fenômeno pop. Ela abre debates e estimula questionamento, consegue enorme sucesso comercial e artístico, transcende campos, se instaura no imaginário popular. E foi exatamente o que ocorreu com Tropa de Elite.  O longa de José Padilha protagonizado por Wagner Moura enfrentou diversos problemas até chegar a telona e acabou sendo pirateado dois meses antes de entrar em circuito por membros de uma produtora responsável por legendas, o que fez com que sua estreia fosse adiada. Mas o que poderia ter prejudicado de forma irreparável sua arrecadação (como costuma ocorrer nos últimos anos, vide Os Mercenários 3) acabou sendo fundamental para aumentar o burburinho popular e a expectativa para conferir a versão finalizada do filme. Todo mundo viu antes da hora e quis ver de novo. Desde o camelô da esquina que vendia o disco pirata até o então Ministro da Cultura na época, Gilberto Gil, que organizou uma sessão em sua casa e foi cobrado pelo diretor.

Lançado em outubro de 2007, Tropa de Elite abordava de maneira nunca antes vista no cinema nacional temas como corrupção e esquemas de propina, segurança pública, violência urbana e legalização de drogas,  com um realismo visceral. Se atualmente o Brasil enfrenta uma polarização política e o Rio de Janeiro sofre financeiramente por conta de anos de desvio de verba por conta de políticos mafiosos e empresas nefastas, dá pra arriscar que o longa foi ‘profético’. As degradantes condições de trabalho da Polícia Militar e sobretudo seu Batalhão de Operações Especiais foram mostradas com crueza, assim como o modus operandi dos soldados nas favelas do Rio.

O que tornava o Filme do Bope – como foi vendido no mercado alternativo – tão diferente?

Para começar, seu diretor sabia exatamente o que queria abordar, tinha domínio dessa linguagem e buscou quem as parcerias criativas necessárias para materializar essa visão. Vindo de Ônibus 174, lançado em 2002 que já expunha a internacionalmente criticada atuação da PM no caso do sequestro do coletivo por um pequeno criminoso – que resultou na morte de uma professora, além do próprio sequestrador -, Padilha sentiu que precisava ampliar o escopo sobre violência, exclusão e diversidade social que Cidade de Deus havia iniciado antes. Para isso procurou o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, que havia acabado de lançar o livro Elite da Tropa, e o convidou para escrever um roteiro junto com Bráulio Mantovani, o responsável final. Os dois também entrevistaram vários policiais e chegaram a mais de 1.700 páginas de material durante mais de três anos de pesquisa, usando suas histórias verdadeiras para criar a trama.

A produção fez o possível para filmar em favelas e bairros mais populares do Rio, negociando diretamente com moradores em áreas dominadas por traficantes, muito antes do processo de pacificação que viria a entrar em colapso uma década depois. Além de sofrer com a burocracia da própria polícia que fez de tudo para dificultar as coisas, os integrantes do staff ainda foram vítimas de um sequestro, ficando na mira de criminosos armados durante horas e tiveram todo o material cenográfico confiscado num dos morros da cidade, o que quase fez com que Padilha abortasse a produção. Todos esses entraves fizeram com que o orçamento inicial pulasse de R$ 4 milhões para 10 milhões de reais. Mas o esmero técnico saltava na tela e as sequências na fictícia comunidade da Babilônia. As cenas de ação eram muito acima do padrão brasileiro, e planos e sequências nos becos e vielas traziam muita influência do cinema norte-americano, o que pode ser explicado pela supervisão de Harvey Weinsten nos cortes iniciais. Ainda assim a crítica yankee não poupou o longa.

Contudo, um filme  que alcance esse status e com uma precisa de um personagem de peso, certo? Alguém com quem o público possa se identificar. E por muito pouco esse alguém não foi André Mathias (André Ramiro). O oficial e graduando em Direito que ainda acreditava no sistema era o centro da narrativa até o último corte do filme, mas Padilha e o editor Daniel Rezende (indicado ao Oscar por Cidade de Deus) optaram por dar esse papel a Sandro Nascimento (Wagner Moura), e o tempo logo tratou de provar que ambos acertaram na mosca. Pai de família em conflito, implacável como líder e soldado, Nascimento caiu nas graças do público e suas frases se tornaram parte do cotidiano de milhões de brasileiros, desde o ‘pede pra sair’ até o ‘bota na conta do Papa’. Para ele, o ‘sistema era foda’. E seu primeiro nome ser o mesmo do sequestrador do ônibus 174 foi intencional por Padilha para ilustrar como a questão da segurança pública afetava a todos.

Como era de se esperar, as críticas mais pesadas também tiveram o capitão do Bope como alvo. Tropa foi classificado como uma propaganda fascista e acusado de fazer apologia a tortura por muitos. Moura, que meses depois faria bastante sucesso ao lado de Camila Pitanga em Paraíso Tropical, escreveu na época sobre sua preocupação com todo o culto a Nascimento, o que podia ser explicado pela ausência de quaisquer políticas de segurança pública no país. Entretanto, ao contrário de certos mitos incensados por adolescentes e pessoas sem argumentação coerente, o Capitão Nascimento se mostrava incorruptível e lidava com as consequências de seus atos.

Tropa  se tornou um grande sucesso de público, o filme mais assistido daquele ano e ganhador do Urso de Ouro em Berlim, entre vários outros prêmios. Muito disso também pode ser creditado pelo seu realismo na preparação de elenco. Além do laboratório individual os atores se trancaram num sítio durante três semanas e lá passaram por um rigoroso treinamento com oficiais da polícia. Todo o elenco foi levado ao limite e alguns resolveram desistir da produção. Milhem Cortaz (o oficial Fábio) se irritou com a comida servida no chão aos aspirantes até o ponto de abandonar as gravações, mas foi convencido por Padilha a voltar. Moura quebrou o nariz de um capitão que lhe provocou ao comentar sobre sua família e passou a ser visto o tempo todo ‘no personagem’, tremendo, com olhos arregalados e voz mais grave. Quando todos estavam praticamente a ponto de esganar uns aos outros, a preparadora de elenco Fátima Toledo dava o sinal positivo ao diretor, autorizando as filmagens.

A sequência Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro lançada alguns anos depois consegue ser um filme ainda mais instigante e crítico. Saem as frenéticas cenas de ação nos morros e entram conspiração e política a nível estadual e municipal, com todos os seus efeitos colaterais. A corrupção hierárquica dentro e fora dos batalhões, o desenvolvimento das milícias – grupos de policiais militares que instauram regimes de exceção em territórios estratégicos e enriquecem através da opressão, propina e monopólio de serviços superfaturados, e que hoje possuem influência decisiva no cenário político carioca – e a discussão sobre segurança pública mostrada em gabinetes seguiu a receita do primeiro, com personalidades reais sendo retratadas através de figuras fictícias, além de intensificar os dilemas pessoais de Nascimento, às voltas com um divórcio, seu filho adolescente e a culpa pelas vidas perdidas dentro de uma guerra tão insana. O final é emblemático: O  coronel percebe que apenas a força bruta não iria mudar nada, resolve depor numa CPI sobre corrupção e entrega dezenas de políticos, nome a nome. Tal como vemos diariamente nos telejornais e demais veículos de mídia.

Os principais nomes lançados pelo filme hoje seguem caminhos distintos. Padilha lançou uma pouco apreciada versão de Robocop e prepara para o ano que vem uma série sobre a Lava-Jato pela Netflix. Moura hoje é um dos atores brasileiros mais admirados, participou de longas como Elisyum (de Neil Blomkamp, com Matt Damon, Jodie Foster e Alice Braga) e recentemente foi Pablo Escobar em Narcos, papel que lhe rendeu indicação ao Globo de Ouro. Já Ramiro ensaia uma carreira internacional e grande parte do elenco segue uma carreira estável com filmes e novelas no circuito nacional.

Levando em conta todos os acontecimentos na esfera sociopolítica brasileira nos últimos anos e percebendo o quando o filme retratou com desconcertante exatidão fatos reais,  a frase de Nascimento não poderia deixar de ser mais apropriada e triste. O sistema é foda. E até que ele mude muita gente inocente vai morrer. A única maneira de mudar isso é participando mais ativamente da política, exigindo que os governantes cumpram seu papel e indo as ruas quando necessário para protestar contra o que for errado e arbitrário.