Crítica: “Liga da Justiça” (2017)

Crítica: “Liga da Justiça” (2017)

Os filmes-evento vem sendo o ápice das estratégias de universo compartilhado dos estúdios e suas franquias. Com todo o enorme êxito financeiro e de crítica da Marvel em 2012 com o primeiro Vingadores os demais estúdios passaram a desejar um mundo para chamar de seu, e a reunião dos personagens contra uma ameaça em comum seria a cereja do bolo. Contudo, estabelecer uma série de filmes que se sustente tanto isoladamente quanto assistidas em seguida não é algo fácil, requer coesão, disciplina e total segurança em sua visão criativa, além de propriedade e conhecimento sobre a matriz intelectual. Por mais que torne-se clichê utilizar a Marvel Studios como parâmetro, acaba sendo inevitável, pois só com ela a fórmula só se mostrou viável e capaz de dar resultado a bons filmes (ok, tirando Homem de Ferro 3, né? Rs) graças a um plano que já conta com pelo menos quinze anos.

Vejamos.  A Universal Studios tentou duas vezes dar partida num Universo (ops) Sombrio, com Drácula: A História Nunca Antes Contada e Frankenstein: Entre Anjos e Demônios, sem sucesso, e apostou em Tom Cruise num reboot de A Múmia como última cartada, com recepção morna e bilheteria aquém do esperado. A Fox, de posse dos direitos cinematográficos dos X-Men, parte pela segunda vez para uma expansão de suas histórias após ter organizado as linha temporal com X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, apesar de ter em Deadpool e Logan seus maiores acertos. A Sony, planeja filmes com os personagens da mitologia do Homem-Aranha e já grava Venom, com Tom Hardy como protagonista. A Warner já confirmou um crossover entre Godzilla e King Kong nos cinemas e parte para mais um passo tentando estabelecer seus heróis mais famosos ao adaptar as histórias da DC Comics, conforme anunciaram em 2014.

Liga da Justiça segue a cartilha de mudanças no tom dos filmes já percebida em Mulher-Maravilha (cuja crítica vocês podem ler aqui). O filme passou por vários problemas durante sua produção: o corte inicial do diretor Zack Snyder tinha quase três horas e foi considerado pelos executivos do estúdio ‘inviável comercialmente’, o que foi a deixa para que grande parte de seu conteúdo fosse refilmado com controle criativo restrito. No final desse processo o cineasta foi abatido por uma tragédia familiar e optou por se afastar totalmente da produção. Sem saída, a Warner chamou Joss Whedon – responsável pelos dois longas dos Vingadores – para inicialmente ajudar no roteiro e guiar cenas adicionais, mas o que duraria apenas duas semanas se estendeu por mais de dois meses, com um custo de 20 milhões de dólares  a mais no orçamento e mudanças significativas na narrativa do longa resultado na exclusão de todas as cenas com Lex Luthor (Jesse Eisenberg). Somem a isso bizarrices como o fato do ator Henry Cavill – o atual Superman – ter gravado com um bigode por conta de seu papel no próximo Missão: Impossível e não poder raspar o mesmo por conta do contrato, o que obrigou o estúdio a utilizar um controverso processo em CGI que deixa o queixo do britânico desproporcional ao resto do rosto em vários momentos de forma constrangedora.

Mas o resultado final tem seus bons momentos. Liga da Justiça sofre com alguns problemas sérios e comuns a muitos outros filmes, mas diverte e confirma o que todos já esperavam: a Warner adotou de vez uma perspectiva mais otimista e ensolarada em seus longas. Saem dilemas, a escuridão e o drama, entram piadas, otimismo e sorrisos, além de muita esperança. Mas

A grande pergunta é: porque o maior grupo de heróis da cultura pop levou tanto tempo para chegar as telas do cinema? A Liga não é apenas um coletivo de seres superpoderosos, ela traz Superman, Batman e Mulher-Maravilha em suas fileiras. Com 57 anos desde que foi criada, o grupo de heróis passou por inúmeras formações e divisões internacionais e estrelou sagas históricas, muitas vezes com o nosso universo e várias outros no fiel da balança, sempre com artistas e escritores que cravaram seus nomes no hall da fama dos quadrinhos. Até o momento as tentativas de adaptar o grupo tinham literalmente falhado – desde o bizarro especial de TV com Adam West e Burt Ward no início dos anos 80 para capitalizar em cima do desenho dos Superamigos a um telefilme da década de 90 que me causa ânsia de vômito só de lembrar … – e um longa que seria dirigido por George Miller teve de ser adiado por conta de uma greve de roteiristas no início do século XXI. A equipe só viu a glória do sucesso após duas bem-sucedidas animações para a tv: Liga da Justiça e sua continuação Sem Limites, que recontaram várias histórias clássicas das hq’s além de outras inéditas, fazendo enorme sucesso com o público de todas as idades.

Portanto, o ineditismo desde filme não pode ser desconsiderado. Vamos a ele?

Aquaman (Momoa), Diana (Gadot), Flash (Miller) e Cyborg (Fisher)

Após os eventos ocorridos em BvS e o sacrifício de Superman contra a ameaça kryptoniana conhecida como Apocalypse, o mundo se ressente de um campeão. Diana Prince (Gal Gadot) faz o que pode para levar uma vida civil e atuar como heroína em Londres, enquanto Batman (Ben Affleck) segue investigando atividades suspeitas dentro e fora de Gotham. Ele descobre os invasores: parademônios, alienígenas vindos de uma outra dimensão e atraídos ao nosso planeta pelo crescimento do medo e conflito e  liderados pelo Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), que deseja obter as Caixas Maternas, artefatos de imenso poder capazes de abrir portais interdimensionais. As três caixas foram deixadas respectivamente com as amazonas, os atlantes e os humanos, como a sequência em flashback no início – lotada de easter eggs e confirmando a existência de outros heróis nesta realidade – conta de forma eficiente.

Ele e Diana chegam a conclusão de que não serão capazes de defender o planeta sozinhos, e resolvem recrutar outros meta-humanos para atuar como a última linha – Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa), Barry Allen, o Flash (Ezra Miller) e Victor Stone, o Cyborg (Ray Fisher). Mesmo reunidos são sobrepujados pelo Lobo da Estepe, e Wayne opta por uma medica radical: trazer o Superman (Cavill) de volta à vida, usando uma das caixas.

A interação entre a equipe é um dos pontos altos do longa. O carisma de Miller se destaca entre os demais e sua inexperiência como herói além de um lado totalmente geek rendem bons momentos. Já o Aquaman de Momoa não foge ao esperado, é o rebelde badass do grupo e suas cenas submarinas são excelentes em relação a fotografia.  O Cyborg de Fisher é bastante interessante, pois é quem menos se sente a vontade com sua condição: fruto de um experimento desesperado de seu pai Silas (Joe Morton) para salvar sua vida após um acidente e fundido a uma caixa materna, Victor é um computador ambulante, capaz de se comunicar com qualquer tipo de tecnologia e de transformar partes do seu corpo em várias armas. Ele ainda não sabe o que é, sempre passa por upgrades e vive em um constante dilema, se escondendo.

Os mais experientes apresentam performances distintas aqui. Gal Gadot mais uma vez mostra como está a vontade no papel de Diana e em nenhum momento deixa os outros esquecerem quem é a heroína mais experiente em ação, sempre liderando e orientando os demais. O Batman de Affleck é infelizmente o contrário, seu excesso de piadas e certa falta de desenvoltura por conta do ator reforçam a sensação de que ele só está ali por ser literalmente bilionário, tamanha é a sua diferença de poder e utilidade em combate dos demais. Ainda que o roteiro se esforce em justificar a mudança de personalidade de Bruce Wayne por conta do que viu e vivenciou com o Superman, fica meio complicado engolir que o Morcego de Gotham em poucos meses deixou de ser violento, amargurado, ressentido e individualista para se tornar alguém tão otimista, e também chama a atenção como Affleck se mostrou mais empolgado no filme anterior. Mais uma vez o lado detetive e sagaz do personagem não foi enfatizado.

Mas e Kal-El? O grande ponto de interrogação dos fãs era sobre o Superman. Como ele viria? Haveria alguma mudança em relação ao que estava sendo trabalhado desde Homem de Aço? Os admiradores do aspecto clássico do maior herói de todos podem finalmente respirar aliviados! Após retornar a viver, confrontar seus novos colegas e passar por uma breve ressocialização com a ajuda de Lois Lane (Amy Adams), Clark Kent finalmente abraça sem hesitar sua condição de luz e ideal de esperança, o que pode ser creditado a Geoff Jonhs, roteirista e presidente da DC Films, que disse que faria de tudo para trazer “o Superman que todos amavam”. Todas as suas cenas são marcadas por raios de sol e bastante destaque por conta da luz. Agora dá até pra ver como seu uniforme é azul! O kryptoniano em determinado momento diz que “gosta da justiça e verdade”, em alusão a uma de suas frases mais emblemáticas nos quadrinhos, sorrindo e confiante. E chama atenção como ele é poderoso em relação aos demais. A cara de medo do Flash ao perceber que ele consegue acompanhar seus movimentos e a facilidade com a qual ele derrota o Lobo da Estepe não deixam dúvidas de que o Azulão é O Maioral da equipe.

E uma equipe tão poderosa merecia um vilão à altura, correto? Infelizmente não é o que ocorre aqui. Ciarán Hinds é mais um excelente ator desperdiçado por um trabalho de computação gráfica totalmente aquém de uma produção desse porte, repetindo o que ocorreu com David Thewlis em Mulher-Maravilha. O vilão é unidimensional, artificial e na maioria dos momentos não funciona. Chegamos até a sentir um alívio depois que ele leva uma surra do Superman e sai de cena. Desde Zod (Michael Shannon) que o universo DC ainda não conseguiu acertar num antagonista com presença e peso. Os demais coadjuvantes cumprem seu papel, com destaque para o Comissário Gordon de J.K. Simmons, cuja versão mostra potencial e pode render ainda mais se tiver mais tempo de tela.

Já pelo ponto de vista técnico a trilha sonora de Danny Elfman infelizmente falha ao tentar inserir elementos mais cartunescos, sobretudo por revisitar de maneira excessivamente breve temas inegavelmente clássicos do Superman e Batman, além do hoje famoso ‘tema de guitarra que na verdade é um cello com distorção’ da Mulher Maravilha. O holandês Junkie XL seria o responsável pela música, mas teve seu trabalho reprovado por Whedon assim que ele ganhou mais autonomia criativa e por isso optou por se desligar da produção. Somado com a edição irregular de David Brenner (também responsável pelo desastroso corte de BvS) isso só acentua ainda mais o aspecto dúbio do filme. Em muitos momentos olhos mais atentos conseguirão concluir onde a assinatura criativa de Snyder e Whedon acaba por pesar mais, respectivamente. As duas cenas pós-credito deixam isso claro. Enquanto a primeira com Flash e Superman é um fan-service leve, apaixonado, simples e eficiente dentro de sua proposta, a última com Lex Luthor (Jesse Eisenberg) e Slade Wilson, o Exterminador (Joe Manganiello) soa arrastada, pesada e insiste em se conectar com aspectos explorados anteriormente que simplesmente não funcionam neste longa, servindo apenas para lançar dezenas de easter eggs quadro a quadro. E é curioso perceber como alguns chistes machistas totalmente ausentes de Mulher Maravilha ressurgem aqui, desde as roupas mais curtas das musculosas amazonas (notem entre as figurantes várias lutadoras e atletas de crossfit, completamente oposto ao visual da mulher mais comum que Patty Jenkins havia lutado para estabelecer) e o Flash caindo com a cara nos seios de Diana – o que parece ser cortesia de Whedon, pois existe uma cena idêntica em Vingadores: Era de Ultron.

Liga da Justiça cumpre seu papel de divertir brevemente e reverenciar a primeira reunião cinematográfica da equipe, mas falha em se enxergar como filme-evento que podia e deveria ser, se cristalizando no imaginário popular como um bom blockbuster. Felizmente, é uma obra que nem de longe se leva tão a sério como Batman v. Superman, muito menos apresenta resultados catastróficos como Esquadrão Suicida, mas traz boas pitadas do que vimos em Mulher Maravilha. O longa consegue mesmo depois de tantos problemas ser leve, otimista e descompromissada, se sustenta como entretenimento sem esconder uma pretensão sob uma estética carregada. Ainda que demonstre vários problemas e uma falta de unidade narrativa, a Warner pode vir a lograr o tão perseguido êxito caso siga com mais capricho o caminho mostrado por este filme, respeitando a essência dos personagens e entregando essa homenagem por tantos anos de devoção e leitura dentro de um produto bem pensado e executado de maneira que se cristalize na mente do espectador. Afinal, cinema ainda é momento e a experiência faz diferença. E como Bruce Wayne deixa claro no final do longa, eles irão precisar de mais cadeiras…


Liga da Justiça (Justice League) — EUA, 2017

Roteiro: Zack Snyder
Roteiro: Chris Terrio, Joss Whedon
Elenco: Gal Gadot, Robin Wright, Jason Momoa, Connie Nielsen, Amy Adams, Ben Affleck, Ezra Miller, Amber Heard, Henry Cavill, Diane Lane, Kiersey Clemons, Billy Crudup, J.K. Simmons, Ciarán Hinds, Jeremy Irons, Jesse Eisenberg, Daniel Stisen, Ray Fisher, Erin Eliza Blevins, Joe Morton
Duração: 121 min.