#GeekOpina08: Abusos dentro e fora de Hollywood: a sociedade precisa mudar

#GeekOpina08: Abusos dentro e fora de Hollywood: a sociedade precisa mudar

Estamos vivendo uma nova era. O caso do influente produtor Harvey Weinstein (envolvido em pelo menos dezenas de casos e que pagava espiões do Oriente Médio para monitorar novas e antigas vítimas) fez com que uma avalanche de acusações contra vários astros das telas viessem a tona. Vítimas – famosas ou não – que tiveram a coragem de se expor, exigindo não apenas justiça, mas uma mudança de comportamento.

Esse tipo de crime não é novidade. Ainda na década de 70 Roman Polanski, já um diretor influente e relevante comercialmente foi acusado de drogar e fazer sexo com uma menina que na época tinha treze anos. Após assumir culpa ele foi condenado, mas fugiu dos EUA, passando as últimas décadas transitando por diversos países da Europa até receber prisão domiciliar na Suécia. Marlon Brando (conhecido por muitos como o maior ator que Hollywood já teve) foi acusado pela atriz Maria Schneider de tê-la estuprado, com a conivência do diretor Bernado Bertolucci e de toda a equipe no set de O Último Tango em Paris após o roteiro ter sido mudado: ela era a única a não saber que a controversa cena de sexo anal com manteiga seria real, e as lágrimas de dor que ela derrama em cena também são reais.

Mia Farrow acusou Woody Allen durante anos de assediar a filha de ambos, Dylan, então menor de idade. O cineasta não apenas passou ileso por isso como traiu Farrow com a enteada Soon-Yi, com quem se casou e vive até hoje. Na época Soon Yi também era menor.

Mas o que mudou? Ao que tudo indica as vítimas finalmente estão ganhando voz e os culpados estão começando a pagar pelas consequências de seus atos, e muito disso pode ser creditado pela incessante busca por igualdade de direitos, além de maior alcance  e reverberação das redes sociais.

Reese Whiterspoon, Jeniffer Lawrence, Björk, Hillarie Button, Carrie Stevens e America Ferrara- denunciando seus agressores

Harvey Weinstein foi durante os últimos trinta anos um dos produtores mais poderosos do cinema e principal nome da Miramax, estúdio sensação do final da década de 90. Sua Weinstein Co. possuía papel decisivo para que um longa nao apenas fosse lançado, mas fizesse sucesso. Realizadores como Quentin Tarantino e Kevin Smith devem suas carreiras a ele. Tarantino se disse evergonhado, que deveria ter feito mais por conhecer a natureza do produtor, pois a atriz Daryl Hannah disse que contou a toda a equipe de produção e colegas de elenco de Kill Bill: Vol. 2 que Weinstein “a assediava, mas ninguém a ouvia”. Smith cortou relações com ele e anunciou que todos os direitos autorais dos filmes que foram distribuídos pela Weinstein Co. serão doados para uma instituição que cuida de vítimas traumatizadas por assédio e estupro, decisão ironicamente também tomada em seguida por Ben Affleck, ex-parceiro e atual desafeto do diretor. Ele foi banido da Academia, expulso de sua empresa e irá responder legalmente por todas as acusações. A quantidade de mulheres que acusaram Weinstein só cresce dia após dia e vai de atrizes como Mira Sorvino (que hoje namora Tarantino), Gywlneth Paltrow, Angelina Jolie, Lea Seydoux, Ashley Judd, Heather Graham e Lena Headey a âncoras e executivas de  TV e cinema. Muitas não haviam se manifestado até agora por medo de que Weinstein as prejudicasse. A atriz Rose McGowan resolveu comprar a briga e usou seu twitter para explanar os abusos que havia sofrido tanto pelo executivo quanto por Ben Affleck, admitindo  no primeiro caso que isso poderia custar sua carreira. E não deu outra, ela nunca mais conseguiu trabalhos de repercussão desde que fez a primeira denúncia e teve suas redes sociais bloqueadas  ao comentar sobre a última.     

 

Jessica Jones: a heroína sofreu com o relacionamento abusivo com Kilgrave (David Tennant) no seriado da Netflix. Infelizmente algo muito comum na vida real

Já a veterana e premiada Meryl Streep declarou que foi assediada sexualmente por Dustin Hoffman nos anos 80. A cantora e atriz Björk revelou que foi assediada pelo diretor Lars Von Trier durante as gravações de Dançando no Escuro. A modelo Carrie Stevens, famosa nos anos 90, disse que foi apalpada por Oliver Stone numa sala com dezenas de pessoas.

Mas os abusadores estão caindo, um a um. Depois de Weinsten, outro peixe grande começa a ver que a coisa mudou: Brett Ratner.  O diretor da franquia A Hora do Rush e então um dos principais nomes da Warner foi acusado por Ellen Page de comportamento homofóbico no set de X-Men: O Confronto Final, com Anna Paquin como testemunha ocular.  O comportamento de Ratner nos bastidores sempre chamou a atenção: sempre exigiu estar cercado de várias mulheres. Gal Gadot acaba de declarar que não irá começar a rodar a sequência de Mulher-Maravilha enquanto a produtora de Ratner – a Ratpac – não se desligar totalmente do financiamento do longa, e ela conta com o apoio irrestrito de Patty Jenkins. Outras duas atrizes também revelaram assédio de Ratner: Natasha Henstridge e Olivia Munn.

Weinstein, Ratner, Spacey e Hoffman

Aqui no Brasil também pudemos acompanhar recentemente um caso de grandes repercussões. O ator José Mayer, por décadas tido como um dos principais galãs da teledramaturgia brasileira e protagonista de várias novelas na Rede Globo sempre com tipos rústicos e machões foi acusado de ter assediado uma figurinista durante os oito meses nos quais ela trabalhou na mesma produção que ele. A mesma reclamou com o setor de RH da emissora sem sucesso, até que o caso vazou no site de um grande jornal brasileiro por breves nove minutos, o que foi suficiente para milhares de compartilhamentos. Após ser inicialmente suspenso e a repercussão ter diminuído, Mayer foi escalado para a próxima novela do canal em horário nobre e num papel principal, mas todas as atrizes que estão no elenco se uniram em protesto dizendo que não gravariam com ele. E a postura de Silvio Santos perante crianças, adolescentes e adultas vem sendo cada vez mais questionada.

A lista de abusadores expostos só aumenta. Mas a maior queda e todas parece ter sido mesmo a de Kevin Spacey. Com dois Oscars no currículo e protagonista de House Of Cards, atração que inaugurou a prática de binge watching ou maratona e estabeleceu a Netflix como um nome sólido no mercado de streaming, ele foi acusado de assédio sexual pelo ator Anthony Rapp (então menor de idade) quando tinha 26 anos. Spacey admitiu a culpa, disse que iria se internar para tratar seu comportamento e se declarou homossexual, o que repercutiu negativamente entre a comunidade LGBT como uma espécie de muleta totalmente irresponsável para justificar o crime. Foi o estopim para que dezenas de pessoas acusassem o ator de assédio moral e sexual, indo desde a equipe de produção de HoC até atores do Teatro Old Vic de Londres, no qual Spacey foi durante muitos anos coordenador de elenco. O ator teve seu contrato com a Netflix encerrado e a homenagem que receberia do Emmy cancelada, além de ter todas as suas cenas removidas do próximo filme de Ridley Scott (Todo o Dinheiro do Mundo) e ser substituído por Christopher Plummer, isso com o filme já finalizado e com menos de um mês para o lançamento. Plummer havia sido a escolha original de Scott para o filme, mas a Sony optou por um ator mais jovem para poder investir numa campanha para premiações e uma indicação ao Oscar de Ator Coadjuvante.

Para termos uma ideia do ineditismo dessa decisão, antes nem mesmo em caso de morte de atores durante as filmagens isso havia ocorrido: quando Oliver Reed faleceu antes de terminar suas cenas em Gladiador o mesmo Scott adotou um dublê e computação gráfica para terminar suas cenas. Processo semelhante ao que houve com Paul Walker em Velozes & Furiosos 7, mas com seu irmão gêmeo e efeitos digitais bem mais modernos. Todos os demais casos mais famosos de substituição de atores ou foram por desempenho ruim ou conflitos de agenda.

Mas cabe uma reflexão importante aqui: será que a punição a Spacey é mesmo proporcional aos crimes que cometeu e que os outros deveriam receber? Não estaria a Weinsten Co., tão poderosa dentro da indústria de entretenimento, influenciando a repercussão para tirar os holofotes de sua marca e assim manter seus negócios futuros não tão prejudicados?

Vamos comparar as consquências. Polanski recebeu um Oscar da Academia por O Pianista (que deu o prêmio de melhor ator a Adrian Brody), recebeu nova acusação de assédio em 2010 mas nada ocorreu, e ainda teve sua prisão domiciliar na Suécia revogada (o diretor vivia com uma pulseira eletrônica). Woody Allen praticamente não teve arranhões em sua carreira, lançando filmes que além de bom retorno comercial sempre foram abraçados pela crítica. E o cineasta tratou de criticar toda a perseguição contra Weinstein definindo o caso como ‘caça ás bruxas’.  Brando morreu sem responder pelo que fez a Maria, que passou o resto de seus dias sendo ignorada. Casey Affleck foi acusado por duas mulheres de assédio sexual e mesmo assim venceu praticamente todos os prêmios do circuito internacional por Manchester A Beira-Mar. Seu irmão mais velho Ben – hoje um diretor respeitado e que atualmente veste o manto do Batman pelos filmes da Warner – também possui um histórico negativo , inclusive num set de filmagem, quando foi acusado pela atriz Siena Miller de prolongar as cenas de sexo no filme A Lei da Noite por mais de nove horas, mesmo contra as reclamações dela. Se o Affleck mais velho saiu ileso profissionalmente, o público começou a responder, ignorando o filme nas bilheterias, o que deu um prejuízo de mais de 70 milhões de dólares aos estúdios.

Já Arnold Schwarzenneger, um gigante das bilheterias entre os anos 80 e 90, recebeu dezesseis acusações de assédio sexual desde O Exterminador do Futuro 2. Após uma simples declaração admitindo que sua conduta “era imprópria” e pedindo desculpas enquanto concorria ao governo da Califórnia, o ator austríaco só viu sua carreira sofrer algum abalo após ter admitido a traição a sua exposa Maria Shriver com um filho fora do casamento, o que lhe custou metade do patrimônio por conta do divórcio. E por falar em outrora campeões de bilheteria que cometeram crimes, Johnny Deep segue com seus compromissos profissionais como se nada tivesse acontecido mesmo após ter agredido sua ex-exposa, a atriz Amber Heard (Liga da Justiça). O ator tem mais um filme da franquia Piratas do Caribe por contrato e também estará no próximo título da série Animais Fantásticos e Por Onde Habitam.

 

Não há como contextualizar todos os casos sem realizar um recorte sobre gênero, no ponto de vista histórico, cultural e social. É inegável que Spacey vem enfrentando consequências extras nesse processo por conta de sua homossexualidade, e por homens serem as vítimas da vez. Mulheres, gays e negros não recebem a mesma benevolência ou retratação midiática de homens brancos e privilegiados que sustentam e vendem a imagem do american way of life, sejam vítimas ou culpados. O ator Terry Crews divulgou que um famoso produtor de Hollywood o assediou na frente da própria esposa durante uma festa. No ano passado Nate Parker protagonizou e dirigiu O Nascimento de Uma Nação, que era o principal filme na corrida pelo Oscar antes das indicações serem definidas e viu seu filme sumir do mapa após um caso no qual foi acusado de estupro vir a tona.

E não podemos esquecer do comediante Bill Cosby, líder de audiência que foi ‘varrido do mapa’ após receber dezenas de denúncias de abuso – 35 registradas oficialmente, 50 casos noticiados ao todo – e admitir ter assediado pelo menos duas adolescentes. Cosby ainda será julgado por ter supostamente drogado e transado com uma mulher em sua casa, crime semelhante ao que Polanski cometeu. Ou de Chuck Berry, cuja carreira musical foi permanentemente danificada por conta dessa diferença de julgamento legal e popular após ter casado com uma menor. Já o também comediante Louis C.K. recebeu diversas denúncias contra comportamento indevido e somente quando admitiu a culpa começou a enfrentar as consequências.

Weinstein e Allen, Affleck e Polanski: os três últimos premiados mesmo com as acusações e condenações

O cantor George Michael, então um pop star sex symbol que havia vendido milhões de discos viu seu nome ser reduzido a pó no final dos anos 90 depois que foi pego num banheiro em Londres com outro homem e preso, acusado por conduta imprópria e atentado ao pudor. Diversos casais heterossexuais diariamente dão amassos em praças de shopping e demais lugares públicos, mas no máximo são repreendidos. Michael resolveu se assumir e viveu até o fim de seus dias com o companheiro, um brasileiro.

Wynona Ryder só agora ensaia retomar a carreira com o sucesso de Stranger Things, após os escândalos de furto e envolvimento com drogas. Lindsay Lohan jamais conseguiu. Drew Barrymore muito menos. Whitney Houston morreu afundada em seu vício após os maus tratos do ex-Bobby Brown serem exaustivamente por ela denunciados. Isso para não citar novamente Maria Shriver, tida como louca até a morte por acusar Brando, o que só começou a mudar quando o diretor Bernardo Bertolucci assumiu que o estupro ocorreu. Já Robert Downey Jr em menos de seis anos conseguiu sair literalmente da sarjeta na cadeira por condenação por invasão de domicílio, porte ilegal de arma e violação de condicional ao posto de ator mais bem-pago do cinema na Marvel.

A sociedade norte-americana em muitos pontos ainda é mais conservadora e patriarcal que a brasileira, e essa corrente se intensificou com a chegada de Donald Trump ao poder e suas medidas mais do que discutíveis em relação a gênero que afetam desde a educação infantil até as Forças Armadas, na contramão de todos os avanços conquistados nos dois mandatos de Barack Obama. Aliás vale lembrar que o mesmo Trump conta com acusações de assédio sexual e estupro. E o parâmetro com tudo o que vem ocorrendo em relação a diminuição de direitos por conta de minorias no Brasil também mostra o quanto precisamos avançar na conscientização. A discussão sobre gênero é mais do que necessária do ponto de vista educacional, imprescindível para termos uma sociedade mais justa e livre de privilégios econômicos e históricos dos homens, principalmente num país como o nosso, que ainda patina e questões básicas como classificação etária e discute sobre a legalidade do aborto sem permitir que nenhuma mulher opine, indo na contramão de nações mais progressistas e registra crimes de ódio, feminicídio, misoginia e homofobia cada vez mais crescentes.

Kevin Spacey deve ser punido e responder por todos os seus crimes. Assim como Harvey Weinstein. E ninguém mais reproduza este mesmo tipo de comportamento, nem julgue com excessivo rigor e relativize as consequências.  Porém, não podemos mais ignorar Marias, Miras, Daryls, Roses . Para que cada vez menos  choremos por Dandaras e Priscilas. Não há mais como separar a arte da realidade, e o papel da arte é nos fazer refletir e questionar, desconstruir e evoluir.