Crítica: “Stranger Things”, 2°a temporada

Crítica: “Stranger Things”, 2°a temporada

Poucas atrações na atualidade conseguem tocar com tanta eficiência o sentimento de nostalgia em relação a uma década que se foi, mas ainda permanece. Stranger Things acertou em cheio ao oferecer em sua primeira temporada uma trama funcional sobre terror, experimentos científicos e o sobrenatural que reuniu diversos elementos de várias obras clássicas nos anos 80, desde filmes como Conta Comigo até seriados e jogos de videogame. A cereja no bolo foi o elenco infantil: Will (Noah Schnapp), Dustin (Gavin Matarazzo), Lucas (Caleb MchLaughlin), Mike (Finn Wolfhard) e a telepata Eleven (Millie Bobby Brown), o grupo de  simpáticas e curiosas crianças que reside na cidadezinha de Hawkins. Após o enorme sucesso, uma segunda temporada era inevitável, assim como todos os benefícios que um orçamento mais generoso poderia oferecer para se contar uma boa história.

Esta nova leva de epísódios não só bebe da mesma fonte oitentista com ainda mais volúpia como amplia o leque de referências para as décadas seguintes, até mesmo se baseia em histórias em quadrinhos, animes e mangás e esboça um amadurecimento em nossos pequenos heróis. O processo de adaptação de Will (Noah Schnapp), sua mãe Joyce (Winona Ryder)  e seu irmão Johnathan (Charlie Heaton) após o evento que revelou o Mundo Invertido é mostrado com bastante profundidade. Este último se aproxima de Nancy (Natalia Dyer), disposta a fazer de tudo para quebrar os documentos de confidencialidade assinados anteriormente e descobrir os responsáveis pela morte de sua melhor amiga Barbara após um acidente no laboratório, enquanto Steve (Joe Keery) deixa pra trás de vez a imagem de garoto-problema. Paralelamente, Eleven segue vivendo escondida com o xerife Jim Hopper (David Harbour, o protagonista do novo Hellboy), sentindo cada vez mais saudades de Mike e seus amigos e nutre mais curiosidade por ter uma vida normal, como qualquer outra criança, mesmo sabendo que isso é praticamente impossível. Já os meninos também enfrentam novas experiências como a entrada de Max (Sadie Sink) para o grupo, o que gera bastante resistência de Mike.

A escolha dos diretores e roteiristas por costurar três linhas narrativas ao longo dos nove episódios apresenta pontos fortes e fracos. As visões de Will e sua ligação ao Mundo Invertido passam  a ser estudadas pelo Dr Owens (Paul Reiser) instigar cada vez mais seus amigos e a ótima interpretação de Noah convence a cada cena.  Já a busca de Nancy e Johnathan por toda a verdade ocorrida os leva a um novo patamar de relacionamento, com um bom equilíbrio entre romance e comédia. O arco envolvendo Eleven,é o mais irregular. Embora Millie Bobby se saia muito bem com o material que tem em mãos principalmente em seus atritos com Hopper e ao encontrar sua mãe, a narrativa sobre sua irmã paranormal  Kali (Lineea Bertheelsen) é desenvolvida de forma rasa e apressada, apenas servindo como estepe para manter a garota separada dos demais e voltar de forma heroica no sétimo episódio ao salvar todo o grupo nu momento que faz alusão a O Ataque dos Vermes Malditos .

Se antes Stranger Things era um caminhão de referências, pode-se dizer que agora temos um navio! A escolha de Sean Astin (O Senhor dos Anéis) para viver Bob, o namorado de Joyce não foi por acaso. Além de Astin ter sido um dos protagonistas de Os Goonies quando garoto e o filme servir de inspiração para vários momentos da série, seu personagem revela para Mike que foi uma das vítimas de Pennywise, o palhaço sobrenatural de It- Uma Obra Prima do Medo, adaptação do livro de Stephen King que acaba de ganhar uma bem-sucedida nova versão para o cinema. Também podemos notar a influência dos Gremlins quando Dustin encontra e adota uma das criaturas do Mundo Invertido (a trilha sonora evoca notas do tema clássico da série) e lida com as consequências de cada troca de pele sua, revelando sempre uma versão mais selvagem que não gosta de luz nem de água. O menino aliás se mostra o mais interessado em ciência do grupo, o que pode ser resumido quando eles resolvem ir para escola em pleno Halloween vestidos como Caça-Fantasmas. Já a possesão de Will pela criatura do Mundo Invertido lembra bastante O Exorcista.   A presença de Paul Reiser como o Dr Owens também explicita que Aliens, O Resgate  serve de base para várias sequências nos episódios finais recheadas de claustrofobia. Já a união de Steve ao grupo faz menção a diversos filmes de babá, tão comuns na década de 80. Vale destacar também a influência dos animes na composição de Eleven ao encontrar o grupo de sua irmã ou como as roupas deles evocam os X-Men   escritos por Chris Claremont, assim como Mad Max, o codinome que a menina utiliza ao quebrar o recorde de Dustin no fliperama. O treinamento de Eleven com sua irmã Kali é totalmente norteado por O Império Contra Ataca, inclusive a decisão da menina de abandonar sua ‘mestra’ para salvar seus amigos. Fora Poltergeist, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Exterminador do Futuro,  Indiana Jones… Acreditem, são centenas de referências e poderíamos ficar horas conversando sobre todas!

Stranger Things erra quando aposta no que já foi usado antes e tenta inserir novidades em seu universo, mas possui  saldo positivo ao final. E cabe aqui uma crítica mais veemente ao abuso de autoridade dos irmãos Duffer para a personagem de Max. A cena do beijo entre ela e Lucas no baile não estava originalmente no roteiro, e eles resolveram mantê-la mesmo com os protestos de Sadie Sink, que literalmente deu o seu primeiro beijo frente várias pessoas da produção, contra a própria vontade. De todas as discussões que a série levanta sobre amadurecimento, esta é de longe a mais problemática. E em tempos onde centenas de queixas de comportamento predatório e violento de homens em Hollywood ou até mesmo a total falta de conhecimento sobre questões de classificação etária no Brasil, vale a reflexão sobre os limites que se deve travar quando lidamos com menores de idade, o que já pode ser observado na primeira temporada quando Eleven mata um dos guardas do laboratório.

A década de 80 nunca foi tão pop quanto agora. E Stranger Things sem dúvida é o show que mais mexe com o público. Com a terceira temporada também confirmada resta agora esperar para ver onde os irmãos Duffer irão levar Eleven, Mike & cia, que conquistaram milhões de fãs por todo o mundo.

Stranger Things – 2ª Temporada (Idem, EUA – 27 de outubro de 2017)
Criadores: Matt Duffer, Ross Duffer (Irmãos Duffer)
Direção: Matt Duffer, Ross Duffer, Shawn Levy, Andrew Stanton, Rebecca Thomas
Roteiro: Matt Duffer, Ross Duffer, Justin Doble, Paul Dichter, Jessie Nickson-Lopez, Kate Trefry
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown, Gaten Matarazzo, Caleb McLaughlin, Natalia Dyer, Charlie Heaton, Noah Schnapp, Joe Keery, Sadie Sink, Dacre Montgomery, Sean Astin, Paul Reiser, Linnea Berthelsen, Brett Gelman, Will Chase, Matthew Modine
Duração: Nove episódios, aproximadamente 480 min.