#GeekOpina07: Os 100 anos de Jack Kirby, O Rei!

#GeekOpina07: Os 100 anos de Jack Kirby, O Rei!

Provavelmente não haverá outro artista tão digno do título de Rei quanto Jacob Kurtzberg, o nome de batismo daquele que literalmente moldou ideias e deu forma a todo o conceito de super-herói como se conhece, levando a narrativa a um novo nível. Mais do que isso, Jack Kirby co-criou praticamente toda a base do Universo Marvel. Quarteto Fantástico, Thor, Hulk, o Capitão América. E o lado cósmico da DC Comics, com Darkseid e Apokolips, Barda e Senhor Milagre, Orion, o demônio Etrigan… Ele inspirou e literalmente ensinou uma incontável leva de desenhistas de todo o mundo (como você pode conferir nesta galeria só de artistas brasileiros) e motivou gerações de realizadores que vão desde James Cameron a Quentin Tarantino. E que estaria completando um século de vida no dia 28 de agosto caso ainda estivesse entre nós.

Um dos principais nomes responsáveis pela onda criativa nos anos 60 que tornou as histórias em quadrinhos mais realistas e menos fantasiosas junto de outros mestres do nanquim como Don Heck e Steve Ditko, Kirby acabou se destacando por também construir a maioria das histórias junto de Stan Lee, o que viria a ser conhecido como o método Marvel de se fazer HQ’s, que chegou a dar origem a um livro com o mesmo título e que passou a ser vendido no Brasil recentemente, de autoria de Lee e outra lenda – John Buscema. Isso provocou um racha entre os fãs: muitos acusam Lee de exagerar sobre sua participação nas histórias e fazer de tudo para minimizar as contribuições de seus parceiros. Mas sabe-se que Kirby foi o responsável por desenvolver muitos roteiros inteiros naquela época, já que Lee também se desdobrava acumulando funções dentro da editora e deixava scripts nas suas mãos.

Mas a vida de Kirby não começou por aí. Depois de uma infância pobre na qual se meteu em diversas confusões e cometeu até mesmo alguns delitos, mas também lhe renderam alguns casos curiosos. Num de seus primeiros empregos como desenhista no estúdio de outra lenda – Will Eisner –  um mafioso foi tirar satisfações com Kirby e literalmente tomou uma surra. Ao chegar em Nova York nos anos 30 logo conheceu o roteirista Joe Simon  e criou o Capitão América para a Timely Comics, futura Marvel. A função do Sentinela da Liberdade era motivar os soldados contra a frente alemã. Aquela capa de HQ com o Capitão socando Hitler não poderia ser mais emblemática: ele foi convocado para a Segunda Guerra, desenhando mapas e ajudando as tropas aliadas com retratos de fugitivos e quase perdeu uma perna devido a complicações causadas pelo frio, servindo durante dois anos. Aliás a capa rendeu outro caso: neonazistas foram ao escritório da Timely acertar contas com Kirby e correram de medo dele. Simon foi parceiro de Kirby também na National Comics Publications, que se transformaria na DC, e essa ligação mostraria muitos dos problemas obscuros comuns nas histórias em quadrinhos, como desvalorização profissional e roubo de propriedade intelectual.

A mágoa com Stan Lee começou a brotar nesta época e diz a lenda que ele foi o responsável pelo afastamento da dupla das histórias do Capitão. Se vendo obrigado a trabalhar numa editora menor para não ficar no vermelho, Kirby praticamente devorava a prancheta desenhando mais de 12 horas por dia e trabalhava  simultaneamente em gêneros como romance adolescente, faroeste e ficção científica, e mesmo assim recebia inúmeros fãs no porão de sua casa enquanto trabalhava, com sua esposa Roz servindo lanches. Foi quando ele criou Groot, a árvore gigante monossilábica, atualmente nos Guardiões da Galáxia e adorado por dez entre dez pessoas. Mas após a editora que montou com Simon ter falido ele e Lee reataram por um período e criaram um grupo diferente de tudo o que existia nos quadrinhos até então: O Quarteto Fantástico.

Mais do que pessoas com poderes incríveis, o Quarteto irradiava uma curiosidade pelo desconhecido e otimismo que encontrava identificação nos jovens daquele tempo, com tantas novidades científicas acontecendo. Não eram deuses ou vigilantes, mas indivíduos que salvavam o mundo mas sofriam com problemas e preocupações cotidianas que todos tinham. O mundo real podia ser reconhecido nas páginas da revista. A verve do Rei simplesmente não parava de jorrar ideias e materializa-las no papel. Hulk, Thor, Os X-Men originais e Magneto, O Pantera Negra e diversos outros personagens ganhavam vida e chocavam legiões de adolescentes e adultos com suas angústias e anseios. Para formar os Vingadores Lee e Kirby resgataram o príncipe submarino Namor e recontaram a origem do Capitão América como conhecemos hoje. E mais ainda, ele também desenhou a origem do Homem-Aranha, mas Lee achou o personagem musculoso demais para um adolescente e coube a Steve Ditko definir sua imagem.

Só esse período já bastaria para colocar Kirby entre os grandes artistas da história. Mas ele fez mais! Inovou com seu lápis, usando técnicas de fotografia, colagem e narrativa até então inéditas enquanto a Marvel se recusava a aumentar os seus royalties. Para completar, ele foi obrigado a ficar ao lado da empresa num nefasto processo pelos direitos criativos do Capitão América contra Joe Simon, que havia criado o personagem ao seu lado e que daria origem ao ultrajante ‘work-for-hire’, que dava a editora direitos autorais de personagens publicados. E a insatisfação com Lee – que mais e mais clamava para si os méritos da Casa de Ideias – o levou a ceder ás ofertas da DC depois de um período de mais de dois anos de telefonemas e cartas. E ao retornar para ‘A Rocha’ Kirby criou um fantástico mundo cósmico que abrigaria personagens que impactariam para sempre nas histórias de Superman, Batman & cia.

Batizado de Quarto Mundo e embebido nas experiências que Kirby absorveu ao trabalhar com ficção científica anos antes, este reino místico e desolado tinha como figura central Darkseid, que tomou de vez o posto de vilão mais poderoso da DC. Os fãs da Liga da Justiça aguardam ansiosamente por uma primeira imagem do vilão no universo de filmes que a Warner iniciou.

Ao contrário do que rolava na Marvel, Kirby era tratado com respeito na DC e ganhava bastante dinheiro com suas revistas e figuras articuladas (muito antes do termo action figures ser cunhado), fora o reconhecimento criativo. Mas o mundo dá voltas e Kirby voltou para a Marvel em 1975, ainda inspirado pelo sobrenatural. Além de reassumir as histórias do Capitão América ele criou Os Celestiais, seres responsáveis por toda a vida na terra e que foram brevemente abordados nos filmes da série Guardiões da Galáxia. Mas mesmo depois de tantas criações espetaculares a editora continuava a ‘fechar a mão’ para o seu maior artista, então ele se viu sem alternativas a não ser lutar nos tribunais. E foi o que fez. Na segunda metade dos anos 80 depois de um longo processo Kirby conseguiu reaver algumas das milhares de páginas que ele havia desenhado e parte dos direitos autorais, que dizem ser de dezenas de milhões de dólares.

Roz viveu ao lado de Jacob Kurtzberg até o fim. Ele faleceu no dia 6 de fevereiro de 1994, numa cerimônia que contou com centenas de astros das HQ’s, discursos inflamados contra o tratamento profissional que ele havia recebido da Marvel e que contou com um Stan Lee cheio de remorso, acompanhando a distância. Seus herdeiros entraram na justiça em 2009 contra a Disney, Marvel, Fox, Sony e Paramount pelos direitos de sua co-criações, com um acordo entre as partes em 2014. É irônico que mesmo atualmente com os filmes de super-herói literalmente carregando o mercado de cinema nas costas tantos artistas que criaram estes personagens tenham morrido sem receber quantias minimamente justas, até mesmo irrisórias. Mas respaldo, tradição e relevância não se compram, e isso Jack Kirby conquistou, enquanto presenteava milhões de pessoas com histórias criativas, ousadas e astutas narrativamente. Algo que só Um Rei consegue, e que irá durar para sempre.