Crítica: “Defensores”, 1°a Temporada – Netflix/Marvel

Crítica: “Defensores”, 1°a Temporada – Netflix/Marvel

Indivíduos que se estranham num primeiro momento aprendem a colocar suas diferenças e objetivos próprios de lado para combater uma ameaça bem maior.  A fórmula não é nova e certamente será usada por muitas e muitas vezes em diversas mídias principalmente em tempos onde universos compartilhados são a nova onda, mas sempre agrada quando funciona. Essa é justamente a tônica de Defensores.  A parceria entre a plataforma de streaming e a Marvel nos entrega sua atração mais ambiciosa até o momento,  depois de apresentar Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro, individualmente.

A história começa meses após os acontecimentos mostrados na série do último defensor. Danny Rand (Finn Jones) e Colleen Wing (Jessica Hemwick) seguem mundo afora rastreando e atacando as operações do Tentáculo, quando esbarram com uma poderosa e misteriosa lutadora no Camboja. Paralelamente, Matt Murdock (Charlie Cox) consegue retomar sua carreira como advogado com bastante sucesso e deixa o uniforme de lado. Luke Cage (Mike Colter) é solto da prisão de Seagate por bom comportamento e Jessica Jones (Kristen Ritter) ainda tenta se reerguer depois de enfrentar todos os abusos de Kilgrave (David Tennant) e hesita em atuar como investigadora particular. Ao investigarem casos isolados em suas respectivas áreas eles acabam por se unir e descobrir que a enigmática Alexandra (Sigourney Weaver) – a líder do Tentáculo – planeja obter a imortalidade junto de seus comparsas, nem que tenha de destruir a cidade de Nova York no processo.

Depois do sucesso de crítica de Demolidor e Jessica Jones, a recepção aquém do esperado a Luke Cage e críticas mais severas a Punho de Ferro, houve um certo temor em relação a Defensores. Será que os pontos negativos da última se repetiriam neste novo show? Felizmente as coisas se mostram bastante diferentes.

Matt Murdock (Cox), Luke Cage (Colter), Jessica Jones (Ritter) e Danny Rand (Jones)

 

Já de cara observamos que a primeira temporada ganhou oito episódios invés dos costumeiros treze e isso foi fundamental para que a trama se desenrolasse com mais agilidade e menos furos de roteiro, e em momento algum nos sentimos cansados ou sem vontade de prosseguir. As cenas de ação também evoluíram consideravelmente desde Punho e ainda que em seus episódios finais a falta de um maior orçamento se faça notar através dos efeitos visuais o saldo final é positivo. Defensores acerta por apostar na força de seus personagens e química deles juntos invés de mero fan service e termina como uma boa série-evento, ao contrário de seus pares. Aproveitando a temática urbana para construir interessantes debates, sobre privilégio econômico e racial  entre Cage e Rand ou os limites da lei, através de Jessica e Murdock. Não são apenas pessoas com habilidades excepcionais, mas sim indivíduos que de uma maneira ou outra procuram fazer o que é certo e não apenas derrotar ” a ameaça do dia”. E para deixar claro que o nível desse inimigo é realmente novo a violência da série cresce significativamente. Sim, estamos falando de membros sendo quebrados e cortados, incluindo cabeças, mostradas sem cerimônia.

Um dos pontos mais positivos da série é justamente a dinâmica entre os personagens, quando vemos o ceticismo inicial e sarcasmo em meio a tanto misticismo dando lugar a piadas amigáveis e uma confiança crescente. Os inevitáveis atritos iniciais são bem trabalhados e de forma coerente com o que cada um deles atravessa no momento. Destacam-se neste aspecto o heroísmo hesitante de Jessica Jones, o altruísmo de Murdock e a moralidade de Cage, que mesmo depois de tudo ainda busca seguir o sistema. Acertadamente o Punho de Ferro não toma a frente na história e é mostrado como um herói novato que ainda precisa aprender muito, embora possua as melhores intenções possíveis, e o personagem cresce bastante em relação a sua série solo. A trilha sonora também serve para realçar a essência de cada defensor e aqui os temas orquestrais mais dramáticos do Demolidor e as doses de hip hop e rap de Cage saltam aos ouvidos. A fotografia, cenografia e paleta de cores se destaca para ilustrar a personalidade de cada um deles e ajudam a nos ambientar em relação a tudo que ocorre. Os tons levemente verdes quando Rand está em cena, os móveis quebrados, paredes sem cor e roupas escuras de Jessica, o amarelo de Cage em meio a objetos grandes e pesados e os ternos sóbrios de Matt em delegacias ou tribunais, ele por sinal  o único que na prática possui um uniforme.

O Demônio de Hell’s Kitchen possui lugar especial na história e é quem mais ganha desenvolvimento emocional. Optando por reassumir  o posto de vigilante para ajudar seus amigos contra O Tentáculo, ele se vê num dilema ao lidar com os retornos de seu mentor Stick (Scott Glenn) e principalmente Elektra Nachios (Elodie Yung). Trazida de volta dos mortos pela organização criminosa através de um ritual macabro e sob a alcunha de Céu Negro, a ninja grega se encontra mais habilidosa do que nunca e dará muito trabalho, principalmente na metade da temporada.

Mas uma boa trama precisa sobretudo de bons coadjuvantes para funcionar, não é mesmo? E aqui Defensores mais uma vez acerta. Além de Colleen, Claire Temple (Rosario Dawson) mais uma vez reforça sua veia de elo entre os heróis e também parte para o campo de batalha. Os dois melhores amigos de Jessica -ajudam a despertar na moça uma humanidade ainda ressentida e Misty Knight (Simone Missick) definitivamente se aproxima de vez de sua versão dos quadrinhos. Foggy Nelson (Elden Henson) e Karen Page (Debora Ann Woll) acabam assumindo um papel mais discreto, mas nada que comprometa, principalmente se levarmos em conta que ambos já tiveram bem mais tempo de tela do que os outros por conta das duas temporadas de Demolidor. E Scott Glenn consegue a proeza de conferir nobreza e veracidade às ultimas ações de Stick.

Quanto ao Tentáculo, Sigourney Weaver esbanja presença e autoridade como Alexandra, também as voltas com os efeitos de uma doença avançada e ansiosa por obter mais uma sobrevida entre tantas outras já vividas. De todos os seus quatro aliados, Madame Gao (Wai Ching Ho) é quem mais ganha espaço e o final da série mais uma vez deixa a entender que a personagem irá voltar.

Infelizmente a série adota mais uma vez o já manjado plot twist do vilão. Algumas coincidências também são bem explícitas. Os furos de roteiro em relação ao Tentáculo também soam um pouco artificiais, principalmente depois do que vimos com a H.I.D.R.A.. Como a delegacia de Nova York escapou ilesa da influência deles? E a dinâmica entre os membros do Tentáculo soa bem fraca em relação ao quarteto principal – o objetivo de usar o pó dos ossos dos dragões místicos de K’un Lun para criar uma substância capaz de ressucitar pessoas acaba por deixar no ar a sensação de que a cidade mística ainda não nos foi sequer apresentada, mesmo depois dos treze e arrastados episódios de Punho. E já está mais do que manjada ‘a luta no corredor’, presente em várias atrações que envolvam artes marciais desde Oldboy, ainda que bem coreografada e realçando as capacidades individuais de cada um deles. Alguém podia reinventar a roda, não?

Defensores cumpre seu papel com sobras de divertir e mostra que a parceria Netflix/Marvel ainda tem sim muita lenha para queimar, principalmente se corrigir no caminho alguns erros. E para manter a tradição, não deixem de assistir a cena pós-crédito. O Justiceiro vem aí!

 

Defensores (Marvel’s The Defenders. EUA, 2017)
Produtor: Marco Ramirez
Direção: S. J. Clarkson, Peter Hoar, Phil Abraham, Uta Briesewitz, Stephen Surjik, Félix Enríquez Alcalá, Farren Blackburn
Elenco: Charlie Cox, Krysten Ritter, Mike Colter, Finn Jones, Rosario Dawson, Jessica Henwick, Rosario Dawson, Sigourney Weaver, Elodie Yung, Elden Henson, Wai Ching Ho,  Simone Missick, Rachael Taylor, Scott Glenn,  Eka Darville, Carrie-Anne Moss, Deborah Ann Woll
Duração: Mais de 400 min, oito episódios.